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A VOZ DOS POETAS - POEMAS CANTADOS

Ser poetaPoema de Florbela EspancaInterpretado pelos TrovanteSer poeta é ser mais alto, é ser maiorDo que os homens ! Morder como quem beija !É ser mendigo e dar como quem sejaRei do Reino de Aquém e de Além Dor !É ter de mil desejos o esplendorE não saber sequer que se deseja !É ter cá dentro um astro que flameja,É ter garras e asas de condor !É ter fome, é ter sede de Infinito !Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…É condensar o mundo num só grito !E é amar-te, assim, perdidamente…É seres alma e sangue e vida em mimE dizê-lo cantando a toda a gente!

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontadesPoema de Luís de CamõesInterpretado por José Mário BrancoMudam-se os tempos, mudam-se as vontades,Muda-se o ser, muda-se a confiança;Todo o mundo é composto de mudança,Tomando sempre novas qualidades.Continuamente vemos novidades,Diferentes em tudo da esperança;Do mal ficam as mágoas na lembrança,E do bem, se algum houve, as saudades.O tempo cobre o chão de verde manto,Que já coberto foi de neve fria,E em mim converte em choro o doce canto.E, afora este mudar-se cada dia,Outra mudança faz de mor espanto:Que não se muda já como soía. Luís de Camões

Amor é fogo que arde sem se verPoema de Luís de CamõesInterpretado por Luís Represas e João GilAmor é fogo que arde sem se ver;É ferida que dói e não se sente;É um contentamento descontente;É dor que desatina sem doer;É um não querer mais que bem querer;É solitário andar por entre a gente;É nunca contentar-se de contente;É cuidar que se ganha em se perder;É querer estar preso por vontade;É servir a quem vence, o vencedor;É ter com quem nos mata lealdade.Mas como causar pode seu favorNos corações humanos amizade,Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Alma minha gentil que te partistePoema de Luís de CamõesInterpretado por SimoneAlma minha gentil, que te partisteTão cedo desta vida, descontente,Repousa lá no Céu eternamenteE viva eu cá na terra sempre triste.Se lá no assento etéreo, onde subiste,Memória desta vida se consente,Não te esqueças daquele amor ardenteQue já nos olhos meus tão puro viste.E se vires que pode merecer-teAlgua cousa a dor que me ficouDa mágoa, sem remédio, de perder-te,Roga a Deus, que teus anos encurtou,Que tão cedo de cá me leve a ver-te,Quão cedo de meus olhos te levou. Luís de Camões

No comboio descendentePoema de Fernando PessoaInterpretado por José AfonsoNocomboio descendenteVinha tudo à gargalhada,Uns por verem rir os outrosE os outros sem ser por nada —No comboio descendenteDe Queluz à Cruz Quebrada...No comboio descendenteVinham todos à janela,Uns calados para os outrosE os outros a dar-lhes trela —No comboio descendenteDa Cruz Quebrada a Palmela...No comboio descendenteMas que grande reinação!Uns dormindo, outros com sono,E os outros nem sim nem não —No comboio descendenteDe Palmela a Portimão...

Uma flor de verde pinhoPoema de Manuel AlegreInterpretado por Carlos do CarmoEu podia chamar-te pátria minhaDar-te o mais lindo nome portuguêsPodia dar-te um nome de rainhaQue este amor é de Pedro por InêsMas não há forma, não há verso, não há leitoPara este fogo, amor, para este rioComo dizer um coração fora do peito?Meu amor transbordou e eu sem navioGostar de ti é um poema que não digoQue não há taça, amor, para este vinhoNão há guitarras nem cantar de amigoNão há flor, não há flor de verde pinhoNão há barco nem trigo não há trevoNão há palavras para escrever esta cançãoGostar de ti é um poema que não escrevoQue há um rio sem leito e eu sem coraçãoMas não há forma, não há verso, não há leitoPara este fogo, amor, para este rioComo dizer um coração fora do peito?Meu amor transbordou e eu sem navioGostar de ti é um poema que não digoQue não há taça, amor, para este vinhoNão há guitarras nem cantar de amigoNão há flor, não há flor de verde pinho

Poema de Carlos Drummond de Andrade Interpretado por Tunai e Maria BethâniaEu te amo porque te amoNão precisas ser amanteE nem sempre sabes sê-loEu te amo porque te amoAmor é estado de graçaE com amor não se pagaAmor é dado de graçaÉ semeado no ventoNa cachoeira, no eclipseAmor foge a dicionáriosE a regulamentos váriosEu te amo porque não amoBastante ou demais a mimPorque amor não se trocaNão se conjuga nem se amaPorque amor é amor a nadaFeliz e forte em si mesmoAmor é primo da morteE da morte vencedorPor mais que o matem (e matam)A cada instante de amorAdicionar à playlistTamanhoAACifraImprimirCorrigir

Descalça vai para a fontePoema de Luís de CamõesInterpretado por Amália RodriguesDescalça vai para a fonteLianor pela verdura;Vai fermosa, e não segura.Leva na cabeça o pote,O testo nas mãos de prata,Cinta de fina escarlata,Sainho de chamelote;Traz a vasquinha de cote,Mais branca que a neve pura.Vai fermosa e não segura.Descobre a touca a garganta,Cabelos de ouro entrançadoFita de cor de encarnado,Tão linda que o mundo espanta.Chove nela graça tanta,Que dá graça à fermosura.Vai fermosa e não segura.

Perdigão perdeu a penaPoema de Luís de CamõesInterpretado por Katia GuerreiroPerdigão perdeu a penaNão há mal que lhe não venha.Perdigão que o pensamentoSubiu a um alto lugar,Perde a pena do voar,Ganha a pena do tormento.Não tem no ar nem no ventoAsas com que se sustenha:Não há mal que lhe não venha.Quis voar a u~a alta torre,Mas achou-se desasado;E, vendo-se depenado,De puro penado morre.Se a queixumes se socorre,Lança no fogo mais lenha:Não há mal que lhe não venha.

Na grande casa branca, de José Eduardo Agualusa, interpretado por João Afonso Na grande casa branca onde eu viviE fui feliz para sempreTudo persiste idêntico e perpétuoÉ a mesma ainda a luz crepuscularDos quartos o quieto momentoE nas largas varandas abertas sobre o marÉ o mesmo ainda o perfume do ventoEm algum lado a casa há de estarEu, é que já não estouEu é que sou as ruínas delaA casa está vazia, ninguém lá moraSalvo aranhas e capinsVê lá bem, a casa perdeu-se de nósE todaviaNunca ela foi tão nossa como agora

ProcissãoPoema de António Lopes VieiraInterpretado por Nuno da Câmara PereiraTocam os sinos na torre da igrejaHá rosmaninho e alecrim pelo chãoNa nossa aldeia, que Deus a protejaVai passando a procissãoMesmo na frente, marchando a compassoDe fardas novas, vem o solidóQuando o regente lhe acena com o braçoLogo o trombone faz popopó, popó, popóOlha os bombeiros, tão bem alinhados!Que se houver fogo vai tudo num foleTrazem ao ombro brilhantes machadosE os capacetes rebrilham ao solTocam os sinos na torre da igrejaHá rosmaninho e alecrim pelo chãoNa nossa aldeia, que Deus a proteja!Vai passando a procissãoOlha os irmãos da nossa confraria!Muito solenes nas opas vermelhas!Ninguém supôs que nesta aldeia haviaTantos bigodes e tais sobrancelhas!Ai, que bonitos que vão os anjinhos!Com que cuidado os vestiram em casa!Um deles leva a coroa de espinhosE o mais pequeno perdeu uma asa!Tocam os sinos na torre da igrejaHá rosmaninho e alecrim pelo chãoNa nossa aldeia, que Deus a proteja!Vai passando a procissãoPelas janelas, as mães e as filhasAs colchas ricas, formando troféuE os lindos rostos, por trás das mantilhasParecem anjos que vieram do céu!Com o calor, o Prior vai aflitoE o povo ajoelha ao passar o andorNão há na aldeia nada mais bonitoQue estes passeios de nosso senhor!Tocam os sinos na torre da igrejaHá rosmaninho e alecrim pelo chãoNa nossa aldeia, que Deus a proteja!Já passou a procissão

O Mostrengo de Fernando PessoaInterpretado pela Tuna EconómicasO MOSTRENGOO mostrengo que está no fim do marNa noite de breu ergueu-se a voar;À roda da nau voou três vezes,Voou três vezes a chiar,E disse: «Quem é que ousou entrarNas minhas cavernas que não desvendo,Meus tectos negros do fim do mundo?»E o homem do leme disse, tremendo:«El-Rei D. João Segundo!»«De quem são as velas onde me roço?De quem as quilhas que vejo e ouço?»Disse o mostrengo, e rodou três vezes,Três vezes rodou imundo e grosso,«Quem vem poder o que só eu posso,Que moro onde nunca ninguém me visseE escorro os medos do mar sem fundo?»E o homem do leme tremeu, e disse:«El-Rei D. João Segundo!»Três vezes do leme as mãos ergueu,Três vezes ao leme as reprendeu,E disse no fim de tremer três vezes:«Aqui ao leme sou mais do que eu:Sou um Povo que quer o mar que é teu;E mais que o mostrengo, que me a alma temeE roda nas trevas do fim do mundo;Manda a vontade, que me ata ao leme,De El-Rei D. João Segundo!»

Amar!Poema de Florbela EspancaInterpretado por D'AlmaEu quero amar, amar perdidamente!Amar só por amar: Aqui... além...Mais Este e Aquele, o Outro e toda a genteAmar! Amar! E não amar ninguém!Recordar? Esquecer? Indiferente!...Prender ou desprender? É mal? É bem?Quem disser que se pode amar alguémDurante a vida inteira é porque mente!Há uma Primavera em cada vida:É preciso cantá-la assim florida,Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!E se um dia hei-de ser pó, cinza e nadaQue seja a minha noite uma alvorada,Que me saiba perder... pra me encontrar...

EndeixasPoema de CamõesInterpretado por Ana MouraPois meus olhos não deixam de chorarTristezas que não cansam de cansar-mePois não abranda o fogo em que abrasar-mePode quem eu jamais pude abrandarNão canse o cego amor de me guiarA parte donde não saiba tornar-meNem deixe o mundo todo de escutar-meEnquanto me a voz fraca não deixarE se em montes, em rios, ou em valesPiedade mora ou dentro mora amorEm feras, aves, plantas, pedras, águasOuçam a longa história de meus malesE curem sua dor com minha dorQue grandes mágoas podem curar mágoas.

AdeusPoema de Eugénio de AndradeInterpretado por Simone de OliveiraJá gastámos as palavras pela rua, meu amor,e o que nos ficou não chegapara afastar o frio de quatro paredes.Gastámos tudo menos o silêncio.Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,gastámos as mãos à força de as apertarmos,gastámos o relógio e as pedras das esquinasem esperas inúteis.Meto as mãos nas algibeiras e não encontronada.Antigamente tínhamos tanto para dar umao outro;era como se todas as coisas fossem minhas:quanto mais te dava mais tinha para te dar.Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixesverdes.E eu acreditava.Acreditava,porque ao teu ladotodas as coisas eram possíveis.Mas isso era no tempo dos segredos,no tempo em que o teu corpo era umaquário,no tempo em que os meus olhoseram realmente peixes verdes.Hoje são apenas os meus olhos.É pouco, mas é verdade,uns olhos como todos os outros.Já gastámos as palavras.Quando agora digo: meu amor,já não se passa absolutamente nada.E, no entanto, antes das palavras gastas,tenho a certezade que todas as coisas estremeciamsó de murmurar o teu nomeno silêncio do meu coração.Não temos já nada para dar.Dentro de tiNão há nada que me peça água.O passado é inútil como um trapo.E já te disse: as palavras estão gastas.Adeus.

Sei que estou sóPoema de Sophia de Mello Breyner AndresenInterpretado por Tiago BettencourtSei que estou só e gelo entre as folhagensNenhuma gruta me pode protegerComo um laço deslaça-se o meu serE nos meus olhos, nos meus olhos morrem as paisagensSei que estou só e gelo entre as folhagensNenhuma gruta me pode protegerComo um laço deslaça-se o meu serE nos meus olhos, nos meus olhos morrem as paisagensDesligo da minha alma a melodiaQue inventei no arTombo das imagensComo um pássaro morto das folhagensTombando se desfaz na terra friaComo um pássaro morto das folhagensTombando se desfaz na terra friaTombando se desfaz na terra fria

Pescador da barca belaPoema de Almeida GarrettInterpretado por Teresa Silva CarvalhoPescador da barca bela,Onde vais pescar com ela,Que é tão bela,Oh pescador?Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela?Colhe a vela,Oh pescador!Deita o lanço com cautela,Que a sereia canta bela...Mas cautela,Oh pescador!Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e velaSó de vê-la,Oh pescador!Pescador da barca bela,Ainda é tempo, foge dela,Foge dela,Oh pescador!

Fado do retornoPoema de Lídia JorgeInterpretado por MísiaAmor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaVoltaste, já voltasteJá entras como sempreAbrandas os teus passosE paras no tapeteEntão que uma luz ardaE assim o fogo aqueçaOs dedos bem unidosMovidos pela pressaAmor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaVoltaste, já volteiTambém cheia de pressaDe dar-te, na paredeO beijo que me peçasEntão que uma luz ardaE assim o fogo aqueçaOs dedos bem unidosMovidos pela pressaAmor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaVoltaste, já volteiTambém cheia de pressaDe dar-te, na paredeO beijo que me peçasEntão que a sombra agiteE assim a imagem façaOs rostos de nós doisTocados pela graça.Amor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaAmor, o que seráMais certo que o futuroSe nele é para habitarA escolha do mais puroJá fuma o nosso fumoJá sobra a nossa mantaJá veio o nosso sonoFechar-nos a gargantaEntão que os cílios olhemE assim a casa sejaA árvore do OutonoCoberta de cereja.

O primeiro diaPoema de Sérgio GodinhoInterpretado por Sérgio Godinho A principio é simples, anda-se sozinhoPassa-se nas ruas bem devagarinhoEstá-se bem no silêncio e no borborinhoBebe-se as certezas num copo de vinhoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaPouco a pouco o passo faz-se vagabundoDá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundoDiz-se do passado, que está moribundoBebe-se o alento num copo sem fundoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaE é então que amigos nos oferecem leitoEntra-se cansado e sai-se refeitoLuta-se por tudo o que se leva a peitoBebe-se, come-se e alguém nos diz: Bom proveito!E vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaDepois vêm cansaços e o corpo fraquejaOlha-se para dentro e já pouco sobejaPede-se o descanso, por curto que sejaApagam-se dúvidas num mar de cervejaE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaEnfim duma escolha faz-se um desafioEnfrenta-se a vida de fio a pavioNavega-se sem mar, sem vela ou navioBebe-se a coragem até dum copo vazioE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaE entretanto o tempo fez cinza da brasaE outra maré cheia virá da maré vaziaNasce um novo dia e no braço outra asaBrinda-se aos amores com o vinho da casaE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pedra FilosofalPoema de António GedeãoInterpretado por Manuel FreireEles não sabem que o sonhoé uma constante da vidatão concreta e definidacomo outra coisa qualquer,como esta pedra cinzenta,em que me sento e descanso,como este ribeiro mansoem serenos sobressaltos,como estes pinheiros altosque em verde e oiro se agitam,como estas aves que gritamem bebedeiras de azul.Eles não sabem que o sonhoé vinho, é espuma, é fermento,bichinho álacre e sedento,de focinho pontiagudonum perpétuo movimento.Eles não sabem que o sonhoé tela, é cor, é pincel,base, fuste, capitel,arco em ogiva, vitral,pináculo de catedral,contraponto, sinfonia,máscara grega, magia,que é retorta de alquimista,mapa do mundo distante,rosa dos ventos, Infante,caravela quinhentista,que é Cabo da Boa Esperança,ouro, canela, marfim,florete de espadachim,bastidor, passo de dança,Colombina e Arlequim,passarola voadora,para-raios, locomotiva,barco de proa festiva,alto-forno, geradora,cisão do átomo, radar,ultrassom, televisão,desembarque em foguetãona superfície lunar.Eles não sabem, nem sonham,que o sonho comanda a vida.Que sempre que um homem sonhao mundo pula e avançacomo bola coloridaentre as mãos de uma criança.

Queixa das almas jovens censuradas, poema de Natália Correia, interpretado por José Mário BrancoDão-nos um lírio e um canivetee uma alma para ir à escolamais um letreiro que prometeraízes, hastes e corola. Dão-nos um mapa imaginárioque tem a forma de uma cidademais um relógio e um calendárioonde não vem a nossa idade. Dão-nos a honra de manequimpara dar corda à nossa ausência.Dão-nos um prémio de ser assimsem pecado e sem inocência. Dão-nos um barco e um chapéupara tirarmos o retrato.Dão-nos bilhetes para o céulevado à cena num teatro.Penteiam-nos os crânios ermoscom as cabeleiras das avóspara jamais nos parecermosconnosco quando estamos sós. Dão-nos um bolo que é a históriada nossa história sem enredoe não nos soa na memóriaoutra palavra que o medo. Temos fantasmas tão educadosque adormecemos no seu ombrosomos vazios despovoadosde personagens de assombro. Dão-nos a capa do evangelhoe um pacote de tabaco.Dão-nos um pente e um espelhopra pentearmos um macaco. Dão-nos um cravo preso à cabeçae uma cabeça presa à cinturapara que o corpo não pareçaa forma da alma que o procura. Dão-nos um esquife feito de ferrocom embutidos de diamantepara organizar já o enterrodo nosso corpo mais adiante. Dão-nos um nome e um jornal,um avião e um violino.Mas não nos dão o animalque espeta os cornos no destino. Dão-nos marujos de papelãocom carimbo no passaporte.Por isso a nossa dimensãonão é a vida. Nem é a morte.

Inquietação, de José Mário Branco, interpretado por Camané e Dead ComboA contas com o bem que tu me fazesA contas com o mal por que passeiCom tantas guerras que traveiJá não sei fazer as pazesSão flores aos milhões entre ruínasMeu peito feito campo de batalhaCada alvorada que me ensinasOiro em pó que o vento espalhaCá dentro inquietação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaHá sempre qualquer coisa que está pra acontecerQualquer coisa que eu devia perceberPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaEnsinas-me fazer tantas perguntasNa volta das respostas que eu traziaQuantas promessas eu fariaSe as cumprisse todas juntasNão largues esta mão no torvelinhoPois falta sempre pouco para chegarEu não meti o barco ao marPra ficar pelo caminhoCá dentro inquietação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaHá sempre qualquer coisa que está pra acontecerQualquer coisa que eu devia perceberPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaCá dentro inquietação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiMas seiÉ que não sei aindaHá sempre qualquer coisa que eu tenho que fazerQualquer coisa que eu devia resolverPorquê, não seiMas seiQue essa coisa é que é linda

O amor, quando se revela, de Fernando Pessoa, interpretado por Salvador Sobral O amor, quando se revela,Não se sabe revelar.Sabe bem olhar p'raela,Mas não lhe sabe falar.Quem quer dizer o que senteNão sabe o que há-de dizer.Fala: parece que mente...Cala: parece esquecer...Ah, mas seelaadivinhasse,Se pudesse ouvir o olhar,E se um olhar lhe bastasseP'ra saber que a estão a amar!Mas quem sente muito, cala;Quem quer dizer quanto senteFica sem alma nem fala,Fica só, inteiramente!Mas se isto puder contar-lheO que não lhe ouso contar,Já não terei que falar-lhePorque lhe estou a falar...