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Ensino básico

Aconteceu poesia


A Poesia
Não é tão rara como parece.
Na mais ínfima das coisas
A Poesia acontece.
Aconteceu Poesia
Quando em teus olhos cor do céu
Vi o pedaço de céu que me cabia.
Aconteceu Poesia
Quando as tuas mãos,
Numa carícia vaga,
Moldaram em meu rosto o ar de angústia
Que o tempo não apaga.
Aconteceu Poesia
Quando em teus olhos cor do céu
Vi o pedaço de céu que me fugia.
E até no dia em que morreste,
Mãe,
Aconteceu Poesia.

Fernando Vieira


Ensino Secundário

Tempo de poesia

Todo o tempo é de poesia


Desde a névoa da manhã

à névoa do outo dia.

Desde a quentura do ventre

à frigidez da agonia


Todo o tempo é de poesia


Entre bombas que deflagram.

Corolas que se desdobram.

Corpos que em sangue soçobram.

Vidas qua amar se consagram.


Sob a cúpula sombria

das mãos que pedem vingança.

Sob o arco da aliança

da celeste alegoria.


Todo o tempo é de poesia.


Desde a arrumação ao caos

à confusão da harmonia.

António Gedeão

Ensino Básico

My Shadow


I have a little shadow that goes in and out with me,

And what can be the use of him is more than I can see.

He is very, very like me from the heels up to the head;

And I see him jump before me, when I jump into my bed.


The funniest thing about him is the way he likes to grow—

Not at all like proper children, which is always very slow;

For he sometimes shoots up taller like an india-rubber ball,

And he sometimes gets so little that there's none of him at all.


He hasn't got a notion of how children ought to play,

And can only make a fool of me in every sort of way.

He stays so close beside me, he's a coward you can see;

I'd think shame to stick to nursie as that shadow sticks to me!


One morning, very early, before the sun was up,

I rose and found the shining dew on every buttercup;

But my lazy little shadow, like an arrant sleepy-head,

Had stayed at home behind me and was fast asleep in bed.

ROBERT LOUIS STEVENSON


Ensino Secundário

LEISURE


What is this life if, full of care,

We have no time to stand and stare.

No time to stand beneath the boughs

And stare as long as sheep or cows.

No time to see, when woods we pass,

Where squirrels hide their nuts in grass.

No time to see, in broad daylight,

Streams full of stars, like skies at night.

No time to turn at Beauty's glance,

And watch her feet, how they can dance.

No time to wait till her mouth can

Enrich that smile her eyes began.

A poor life this if, full of care,

We have no time to stand and stare.

William Henry Davies

MON STYLO


Si mon stylo était magique,

Avec des mots en herbe,

J’écrirais des poèmes superbes,

Avec des mots en cage,

J’écrirais des poèmes sauvages.


Si mon stylo était artiste,

Avec les mots les plus bêtes,

J’écrirais des poèmes en fête,

Avec des mots de tous les jours,

J’écrirais des poèmes d’amour.


Mais mon stylo est un farceur

Qui n’en fait qu’à sa tête,

Et mes poèmes, sur mon cœur,

Font des pirouettes.

Robert GÉLIS



POUR TOI MON AMOUR

Je suis allé au marché aux oiseaux

Et j'ai acheté des oiseaux

Pour toi

Mon amour


Je suis allé au marché aux fleurs

Et j'ai acheté des fleurs

Pour toi

Mon amour


Je suis allé au marché à la ferraille

Et j'ai acheté des chaines, de lourdes chaines

Pour toi

Mon amour


Et puis, je suis allé au marché aux esclaves

Et je t'ai cherchée

Mais je ne t'ai pas trouvée

Mon amour


Jacques Prévert


Ensino Básico

Baile

La Carmen está bailando

por las calles de Sevilla.

Tiene blancos los cabelos

y brillantes las pupilas.


¡Niñas,

corred las cortinas!


En su cabeza se enrosca

una serpiente amarilla,

y va soñando en el baile

con galanes de otros días.


¡Niñas,

corred las cortinas!


Las calles están desiertas

y en los fondos se adivinan,

corazones andaluces

buscando viejas espinas.


¡Niñas,

corred las cortinas!

Federico García Lorca


Ensino Secundário

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche.


Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,

y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".


El viento de la noche gira en el cielo y canta.


Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Yo la quise, y a veces ella también me quiso.


En las noches como esta la tuve entre mis brazos.

La besé tantas veces bajo el cielo infinito.


Ella me quiso, a veces yo también la quería.

Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.


Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.


Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.

Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.


Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.

La noche está estrellada y ella no está conmigo.


Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.

Mi alma no se contenta con haberla perdido.


Como para acercarla mi mirada la busca.

Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.


La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.

Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.


Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.

Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.


De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.

Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.


Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.


Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,

mi alma no se contenta con haberla perdido.


Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,

y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Pablo Neruda

Ensino Básico


História de uma conta de somar

Uma conta de somar

sensível às coisas belas

pôs-se a contar as estrelas

numa noite de luar.


Estava ela a olhar o céu

somando infinitamente

quando uma estrela cadente

luziu e desapareceu...


Com uma parcela cadente

não estava a conta a contar!

Que fazer? Passar à frente?

Contá-la? Não a contar?


Fazer de conta que não

se dera conta de nada?

Mas, e depois, a adição?

Não daria conta errada?


E quando ela fosse dar

contas à prova dos nove?

Ia a prova acreditar

em parcelas que se movem?


E a conta achou-se a contas

contemplando o céu sereno

com um problema terreno

difícil de resolver.


A solução que encontrou

foi terra-a-terra também:

quando um problema não tem

solução já se solucionou...


E, contas feitas, a conta

decidiu fazer de conta...

Estava a contar estrelas,

não a tomar conta delas!


Fingiu, pois, que não deu conta

da escapadela da estrela,

afinal a vida dela

não era da sua conta!


Só que enquanto fazia

tais contas à conta dela

a manhã amanhecia

e apagavam-se as estrelas.


Nasceu o sol, fez-se dia,

e o quadro negro do céu

aonde a conta fazia

contas desapareceu...


Nunca antes uma conta

teve tanto que contar

como a conta de somar

que quis contar as estrelas!


Manuel António Pina



Ensino Secundário

Poesia matemática

Às folhas tantas

do livro matemático

um Quociente apaixonou-se

um dia

doidamente

por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável

e viu-a do ápice à base

uma figura ímpar;

olhos rombóides, boca trapezóide,

corpo retangular, seios esferóides.

Fez de sua uma vida

paralela à dela

até que se encontraram

no infinito.

"Quem és tu?", indagou ele

em ânsia radical.

"Sou a soma do quadrado dos catetos.

Mas pode me chamar de Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram

(o que em aritmética corresponde

a almas irmãs)

primos entre si.

E assim se amaram

ao quadrado da velocidade da luz

numa sexta potenciação

traçando

ao sabor do momento

e da paixão

retas, curvas, círculos e linhas sinoidais

nos jardins da quarta dimensão.

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas

e os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.

E enfim resolveram se casar

constituir um lar,

mais que um lar,

um perpendicular.

Convidaram para padrinhos

o Poliedro e a Bissetriz.

E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro

sonhando com uma felicidade

integral e diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante e três cones

muito engraçadinhos.

E foram felizes

até aquele dia

em que tudo vira afinal

monotonia.

Foi então que surgiu

O Máximo Divisor Comum

frequentador de círculos concêntricos,

viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,

uma grandeza absoluta

e reduziu-a a um denominador comum.

Ele, Quociente, percebeu

que com ela não formava mais um todo,

uma unidade.

Era o triângulo,

tanto chamado amoroso.

Desse problema ela era uma fração,

a mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade

e tudo que era espúrio passou a ser

moralidade

como aliás em qualquer

sociedade.


Millôr Fernandes

Ciência ou poesia?


Entre focos de prazer:

ciência ou poesia,

pergunto, o que fazia

se tivesse de escolher.


Ciência e poesia...

acho que me apetecia

fazer desta maneira:

as duas na algibeira!


A ciência escolheria

Se quisesse mais rigor,

com saber eu saberia

como cresce uma flor.


E olhando essa flor

a colhesse com alegria

e oferecesse em amor,

embrulhava em poesia...


Se em vez de perceber

eu quisesse antes dizer

o que a fórmula não diria,

escolheria então a poesia...


Não vou escolher, mas juntar

Trago ciência e poesia.

Ciência é luz a brilhar,

poesia é luz no meu dia


João Paiva

Poesia sobre o ciclo das rochas


Pra quem vive neste Planeta

E que pisa nesse chão,

O ciclo das Rochas

Eu trago com admiração,

Nesse texto resumido

Do magma ao metamorfismo

Passará por minha mão...


O material rochoso

Quando vem a se fundir,

Transforma-se em magma

Que no vulcão vai fluir.

De lava é chamado

E quando cristalizado

Rochas Ígneas faz surgir!


Nas áreas vulcânicas

Há de se observar

Que as rochas mais comuns,

Os Basaltos (até o Vesicular),

Têm arranjo aleatório

O que não é notório

Pois os minerais, não dá pra se enxergar!


Se a Ígnea Vulcânica

Vira Rocha na superfície,

A Ígnea Plutônica

Não chega aqui na planície,

Gerando o Gabro e o Granito

Pois o Diabásio é um tipo

Mais próximo da superfície!


Pra continuar o Ciclo

Eu trago detalhes,

Sobre outra classe de Rochas

Que são as Sedimentares.

Frutos da erosão

Percorrem vários lugares

Antes de se depositarem

E em rocha se tornarem!
As Sedimentares detríticas

Como o Argilito e o Siltito

Tem o tato macio,

Diferente do Arenito

Que é áspero e friável

Muito mais erodível

Perante os outros tipos.


Conglomerados e Brechas

Não tem estratificação,

Mesmo assim são detríticas

O que os Calcários não são

São Calcita e Dolomita

As classes desse tipo

São químicas, com razão!


A Pressão e a Temperatura

Agindo prolongadamente

Sobre um corpo rochoso

Nas profundezas do chão

Causam a transformação

Do material em questão!


O metamorfismo pode ser

De Contato ou Regional

Mudando as estruturas

Daquele material.

É a recristalização

Dobra, foliação...


A Ardósia é a primeira

No grau de metamorfismo

Depois vem o Filito,

Que é anterior ao Xisto.

O Gnaisse é bandado

E o migmatito, ondulado...


Qualquer das rochas

Está sujeita à alteração,

Em se tratando de um ciclo

Aberto à ocasião.

Pois a natureza não erra,

Quando compõe a Terra:

É pura imaginação!


Leandro Caetano de Magalhães

Tecnologia

Pipas (*) não mais são alçadas.

Inexistem crianças nas calçadas.

Não vejo pernas raladas,

Apenas pontas de dedos calejadas.


Uma juventude robotizada,

“Gigabytes” de memória aguçada,

Praticamente não esquecem nada,

Quando esquecem, no computador dão uma olhada.


Adolescentes em busca de namoradas,

Salas de bate-papo on-line lotadas.

E a nossa criatividade sempre apontada.

Pela tecnologia é totalmente ofuscada.


E com isso a imaginação é congelada,

Parada, obstruída... Assassinada.

Para a diversão, basta uma busca caprichada...

Na internet, a qualquer clique damos uma gargalhada.


Poesias no computador são digitadas,

Não existem mais rascunhos com palavras riscadas.

Não acredito... Vendi-me a tecnologia apresentada,

Acho que a simplicidade de cadernos de poesia foi trocada...

(*) à papagaio de papel


Luan Mordegane Pupo

Física


Colho esta luz solar à minha volta,

no meu prisma e disperso e recomponho:

rumor de sete cores, silêncio branco.


Como flechas disparadas do seu arco,

do violeta ao vermelho percorremos

o inteiro espaço que aberto no suspiro

se remata convulso em grito rouco.


Depois todo o rumor se reconverte

tornam as cores ao prisma que define

à luz solar de ti ao silêncio.


José Saramago


Solução


Eu quero uma solução

homogénea, preparada,

coisa certa, controlada

para ter tudo na mão.

Solução para questão

que não ouso resolver.

Diluída num balão

elixir p'ra me entreter.

Faço centrifugação

para ter ar uniforme

uso varinha conforme,

seja mágica ou não.

Busco uma solução

tudo lindo, direitinho

eu quero ter tudo certinho

ter o mundo nesta mão.

Procuro mistura, então

aqueço tudo em cadinho.

E vejo não ter solução

mas apenas um caminho...


João Paiva

AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.


E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.


Fernando Pessoa


Dito por David Fonseca: https://www.youtube.com/watch?v=rAZNcgT0E00


Poema para Galileo


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce

sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.

Disse Galeria dos Ofícios.)

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… Eu sei…

As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileo Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença

está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.

Palavra de honra que está!

As voltas que o mundo dá!

Se calhar até há gente que pensa

que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileo,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu,

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar - que disparate, Galileo!

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeca

sem a menor hesitação -

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.


Pois não é evidente, Galileo?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?


Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileo,

daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo

e tinhas à tua frente

um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo

a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,

que parecia impossível que um homem da tua idade

e da tua condição,

se estivesse tornando num perigo

para a Humanidade

e para a Civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade,

os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.


Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,

desceram lá das suas alturas

e poisaram, como aves aturdidas - parece que estou a vê-las -,

nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual

conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias

nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,

aquelas abomináveis heresias

que ensinavas e escrevias

para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileo!

Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,

que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,

andavam a correr e a rolar pelos espaços

à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias, a todos os contratempos,

enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo,

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa dos quadrados dos tempos.

António Gedeão


Dito por Mário Viegas: https://www.youtube.com/watch?v=nFUNeV8acN8



Ensino Básico

O Mostrengo


O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

A roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»


Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»


Fernando Pessoa


Dito por João Villaret: https://www.youtube.com/watch?v=L5Ihd-ECpYM


Ensino Secundário

Perguntas de um Operário Letrado


Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis,

Mas foram os reis que transportaram as pedras?

Babilónia, tantas vezes destruída,

Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas

Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde

Foram os seus pedreiros? A grande Roma

Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem

Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio

Só tinha palácios

Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida

Na noite em que o mar a engoliu

Viu afogados gritar por seus escravos.


O jovem Alexandre conquistou as Índias

Sozinho?

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha

Chorou. E ninguém mais?

Frederico II ganhou a guerra dos sete anos

Quem mais a ganhou?


Em cada página uma vitória.

Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.

Quem pagava as despesas?


Tantas histórias

Quantas perguntas



Bertolt Brecht

Mapa


Plano como a mesa

na qual está colocado.

Debaixo dele nada se move

nem busca vazão.

Sobre ele - meu hálito humano

não cria vórtices de ar

e deixa toda a sua superfície

em silêncio.


Suas planícies, vales, são sempre verdes,

os planaltos, montanhas, amarelos e marrons

e os mares, oceanos, de um azul delicado

nas margens fendidas.


Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.

Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,

acariciar os polos sem luvas grossas.

Com um olhar posso

abarcar cada deserto

junto com o rio logo ali ao lado.


Selvas são assinaladas com arvorezinhas

entre as quais seria difícil se perder.


No Ocidente e Oriente

acima e abaixo do equador —

assentou-se um manso silêncio.

Pontinhos pretos significam

que ali vivem pessoas.

Valas comuns e súbitas ruínas

não cabem nesse quadro.


As fronteiras dos países mal são visíveis

como se hesitassem entre ser e não ser.


Gosto dos mapas porque mentem.

Porque não dão acesso à dura verdade.

Porque, generosos e bem-humorados,

estendem-me na mesa um mundo

que não é deste mundo.


(Wisława Szymborska - Tradução: Regina Przybycień)

POÉTICA DE MERCADO



Quanto maior o risco,

Maior o lucro, dizem uns.

Cansei de riscar e arriscar poemas!

Nada mais ganhei do que dívidas

E dúvidas: com o português e as letras e as coisas…

Meu lastro poético continua esteticamente inútil.


Quem dera se uma letra minha se tornasse

De crédito: imobiliário ou agrícola!

Ah, se minhas palavras valessem como ações

E estivessem sempre em alta,

Prontas para a melhor venda!


Quanta sorte eu teria se minhas frases

Fossem títulos públicos de um tesouro direto

Ou um certificado de depósito bancário ou interbancário!


O problema é que minha poesia não rende, fixa-se

E me afundo nos fundos das ações que ficam imóveis.

Resta-me, talvez, apostar nos debêntures dos antigos poetas

E nos derivativos dos que estão por vir.


Se o passado não garante o futuro,

Quem é o futuro para garantir um passo dado?

É preciso, pois, fazer alquimia:

Transformar ouro em um padrão

Que tenha como lastro a Poesia.



Anónimo

Aula de ginástica: não quero
chegar atrasado.
Não posso perder o aquecimento
que se faz de braços lentos, de quadris perfeitos,
de lado direito semelhante ao esquerdo.
Preciso me concentrar, como se
para cada movimento
eu escrevesse a mesma palavra em vários idiomas.
A perna devagar se levanta
e lentamente vai ao chão para esmagar
o que depois veremos.
Pouco a pouco fico pronto
para a luta:
que venham as mais ferozes forças,
como os furacões no mar da América Central,
pois eu já estou feito.
O exercício me vicia em ser veloz,
mas foi apenas somando cada onda
que cheguei a formar isso que sou:
um corpo que o naufrágio abandonou.

Felipe Fortuna

Desenho


No papel branco

desenharei um Sol

bem amarelo

e no alto dum monte

um enorme castelo

entre campos lavrados

e povoarei a terra

de cavaleiros e de soldados.


Às nuvens darei

a forma de gente

(e haverá quem pense

que são gente a sério…)

e ouvir-se-á

pela noite fora

os uivos dos lobos

até vir a aurora

que desfará o medo

e o mistério…


E chegará a noite...

tombarei de sono...

Castelo, soldados,

e os campos lavrados

e os lobos esfaimados

tudo deixarei

sobre o papel

ao abandono...


Dormirei tranquilo

e amanhã estarei

sentado no banco

de novo a sonhar.


e no papel branco

desenharei aquilo

que hoje não fui capaz:


um castelo

um sol amarelo


e as pessoas

em paz.


Alice Vieira

Lágrima de preta



Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.


Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.


Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.


Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:


Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.

António Gedeão


Musicado e cantado por Manuel Freire: https://www.youtube.com/watch?v=v2AXsH_miaQ



Sabes leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti, e a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.


Daniel Faria





As árvores como os livros têm folhas

e margens lisas ou recortadas,

e capas (isto é copas) e capítulos

de flores e letras de oiro nas lombadas.


E são histórias de reis, histórias de fadas,

as mais fantásticas aventuras,

que se podem ler nas suas páginas,

no pecíolo, no limbo, nas nervuras.


As florestas são imensas bibliotecas,

e até há florestas especializadas,

com faias, bétulas e um letreiro

a dizer: «Floresta das zonas temperadas».


É evidente que não podes plantar

no teu quarto, plátanos ou azinheiras.

Para começar a construir uma biblioteca,

basta um vaso de sardinheiras.


Jorge Sousa Braga