Want to make creations as awesome as this one?

Poemas adequados às disciplinas

Transcript

Ensino básicoAconteceu poesiaA PoesiaNão é tão rara como parece.Na mais ínfima das coisasA Poesia acontece.Aconteceu PoesiaQuando em teus olhos cor do céuVi o pedaço de céu que me cabia.Aconteceu PoesiaQuando as tuas mãos,Numa carícia vaga,Moldaram em meu rosto o ar de angústiaQue o tempo não apaga.Aconteceu PoesiaQuando em teus olhos cor do céuVi o pedaço de céu que me fugia.E até no dia em que morreste,Mãe,Aconteceu Poesia.Fernando VieiraEnsino SecundárioTempo de poesiaTodo o tempo é de poesiaDesde a névoa da manhãà névoa do outo dia.Desde a quentura do ventreà frigidez da agoniaTodo o tempo é de poesiaEntre bombas que deflagram.Corolas que se desdobram.Corpos que em sangue soçobram.Vidas qua amar se consagram.Sob a cúpula sombriadas mãos que pedem vingança.Sob o arco da aliançada celeste alegoria.Todo o tempo é de poesia.Desde a arrumação ao caosà confusão da harmonia.António Gedeão

Ensino BásicoMy ShadowI have a little shadow that goes in and out with me,And what can be the use of him is more than I can see.He is very, very like me from the heels up to the head;And I see him jump before me, when I jump into my bed.The funniest thing about him is the way he likes to grow—Not at all like proper children, which is always very slow;For he sometimes shoots up taller like an india-rubber ball,And he sometimes gets so little that there's none of him at all.He hasn't got a notion of how children ought to play,And can only make a fool of me in every sort of way.He stays so close beside me, he's a coward you can see;I'd think shame to stick to nursie as that shadow sticks to me!One morning, very early, before the sun was up,I rose and found the shining dew on every buttercup;But my lazy little shadow, like an arrant sleepy-head,Had stayed at home behind me and was fast asleep in bed.ROBERT LOUIS STEVENSONEnsino SecundárioLEISUREWhat is this life if, full of care,We have no time to stand and stare.No time to stand beneath the boughsAnd stare as long as sheep or cows.No time to see, when woods we pass,Where squirrels hide their nuts in grass.No time to see, in broad daylight,Streams full of stars, like skies at night.No time to turn at Beauty's glance,And watch her feet, how they can dance.No time to wait till her mouth canEnrich that smile her eyes began.A poor life this if, full of care,We have no time to stand and stare.William Henry Davies

MON STYLOSi mon stylo était magique,Avec des mots en herbe,J’écrirais des poèmes superbes,Avec des mots en cage,J’écrirais des poèmes sauvages.Si mon stylo était artiste,Avec les mots les plus bêtes,J’écrirais des poèmes en fête,Avec des mots de tous les jours,J’écrirais des poèmes d’amour.Mais mon stylo est un farceurQui n’en fait qu’à sa tête,Et mes poèmes, sur mon cœur,Font des pirouettes.Robert GÉLISPOUR TOI MON AMOURJe suis allé au marché aux oiseauxEt j'ai acheté des oiseauxPour toiMon amourJe suis allé au marché aux fleursEt j'ai acheté des fleursPour toiMon amourJe suis allé au marché à la ferrailleEt j'ai acheté des chaines, de lourdes chainesPour toiMon amourEt puis, je suis allé au marché aux esclavesEt je t'ai cherchéeMais je ne t'ai pas trouvéeMon amourJacques Prévert

Ensino BásicoBaileLa Carmen está bailandopor las calles de Sevilla.Tiene blancos los cabelosy brillantes las pupilas.¡Niñas,corred las cortinas!En su cabeza se enroscauna serpiente amarilla,y va soñando en el bailecon galanes de otros días.¡Niñas,corred las cortinas!Las calles están desiertasy en los fondos se adivinan,corazones andalucesbuscando viejas espinas.¡Niñas,corred las cortinas!Federico García LorcaEnsino SecundárioPUEDO escribir los versos más tristes esta noche.Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".El viento de la noche gira en el cielo y canta.Puedo escribir los versos más tristes esta noche.Yo la quise, y a veces ella también me quiso.En las noches como esta la tuve entre mis brazos.La besé tantas veces bajo el cielo infinito.Ella me quiso, a veces yo también la quería.Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.Puedo escribir los versos más tristes esta noche.Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.La noche está estrellada y ella no está conmigo.Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.Mi alma no se contenta con haberla perdido.Como para acercarla mi mirada la busca.Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,mi alma no se contenta con haberla perdido.Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,y éstos sean los últimos versos que yo le escribo. Pablo Neruda

Ensino BásicoHistória de uma conta de somarUma conta de somarsensível às coisas belaspôs-se a contar as estrelasnuma noite de luar.Estava ela a olhar o céusomando infinitamentequando uma estrela cadenteluziu e desapareceu...Com uma parcela cadentenão estava a conta a contar!Que fazer? Passar à frente?Contá-la? Não a contar?Fazer de conta que nãose dera conta de nada?Mas, e depois, a adição?Não daria conta errada?E quando ela fosse darcontas à prova dos nove?Ia a prova acreditarem parcelas que se movem?E a conta achou-se a contascontemplando o céu serenocom um problema terrenodifícil de resolver.A solução que encontroufoi terra-a-terra também:quando um problema não temsolução já se solucionou...E, contas feitas, a contadecidiu fazer de conta...Estava a contar estrelas,não a tomar conta delas!Fingiu, pois, que não deu contada escapadela da estrela,afinal a vida delanão era da sua conta!Só que enquanto faziatais contas à conta delaa manhã amanheciae apagavam-se as estrelas.Nasceu o sol, fez-se dia,e o quadro negro do céuaonde a conta faziacontas desapareceu...Nunca antes uma contateve tanto que contarcomo a conta de somarque quis contar as estrelas!Manuel António PinaEnsino SecundárioPoesia matemáticaÀs folhas tantasdo livro matemáticoum Quociente apaixonou-seum diadoidamentepor uma Incógnita.Olhou-a com seu olhar inumerávele viu-a do ápice à baseuma figura ímpar;olhos rombóides, boca trapezóide,corpo retangular, seios esferóides.Fez de sua uma vidaparalela à delaaté que se encontraramno infinito."Quem és tu?", indagou eleem ânsia radical."Sou a soma do quadrado dos catetos.Mas pode me chamar de Hipotenusa."E de falarem descobriram que eram(o que em aritmética correspondea almas irmãs)primos entre si.E assim se amaramao quadrado da velocidade da luznuma sexta potenciaçãotraçandoao sabor do momentoe da paixãoretas, curvas, círculos e linhas sinoidaisnos jardins da quarta dimensão.Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianase os exegetas do Universo Finito.Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.E enfim resolveram se casarconstituir um lar,mais que um lar,um perpendicular.Convidaram para padrinhoso Poliedro e a Bissetriz.E fizeram planos, equações e diagramas para o futurosonhando com uma felicidadeintegral e diferencial.E se casaram e tiveram uma secante e três conesmuito engraçadinhos.E foram felizesaté aquele diaem que tudo vira afinalmonotonia.Foi então que surgiuO Máximo Divisor Comumfrequentador de círculos concêntricos,viciosos.Ofereceu-lhe, a ela,uma grandeza absolutae reduziu-a a um denominador comum.Ele, Quociente, percebeuque com ela não formava mais um todo,uma unidade.Era o triângulo,tanto chamado amoroso.Desse problema ela era uma fração,a mais ordinária.Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividadee tudo que era espúrio passou a sermoralidadecomo aliás em qualquersociedade.Millôr Fernandes

Ciência ou poesia?Entre focos de prazer:ciência ou poesia,pergunto, o que faziase tivesse de escolher.Ciência e poesia...acho que me apeteciafazer desta maneira:as duas na algibeira!A ciência escolheriaSe quisesse mais rigor,com saber eu saberiacomo cresce uma flor.E olhando essa flora colhesse com alegriae oferecesse em amor,embrulhava em poesia...Se em vez de percebereu quisesse antes dizero que a fórmula não diria,escolheria então a poesia...Não vou escolher, mas juntarTrago ciência e poesia.Ciência é luz a brilhar,poesia é luz no meu diaJoão Paiva

Poesia sobre o ciclo das rochasPra quem vive neste PlanetaE que pisa nesse chão,O ciclo das RochasEu trago com admiração,Nesse texto resumidoDo magma ao metamorfismoPassará por minha mão...O material rochosoQuando vem a se fundir,Transforma-se em magmaQue no vulcão vai fluir.De lava é chamadoE quando cristalizadoRochas Ígneas faz surgir!Nas áreas vulcânicasHá de se observarQue as rochas mais comuns,Os Basaltos (até o Vesicular),Têm arranjo aleatórioO que não é notórioPois os minerais, não dá pra se enxergar!Se a Ígnea VulcânicaVira Rocha na superfície,A Ígnea PlutônicaNão chega aqui na planície,Gerando o Gabro e o GranitoPois o Diabásio é um tipoMais próximo da superfície!Pra continuar o CicloEu trago detalhes,Sobre outra classe de RochasQue são as Sedimentares.Frutos da erosãoPercorrem vários lugaresAntes de se depositaremE em rocha se tornarem!As Sedimentares detríticasComo o Argilito e o SiltitoTem o tato macio,Diferente do ArenitoQue é áspero e friávelMuito mais erodívelPerante os outros tipos.Conglomerados e BrechasNão tem estratificação,Mesmo assim são detríticasO que os Calcários não sãoSão Calcita e DolomitaAs classes desse tipoSão químicas, com razão!A Pressão e a TemperaturaAgindo prolongadamenteSobre um corpo rochosoNas profundezas do chãoCausam a transformaçãoDo material em questão!O metamorfismo pode serDe Contato ou RegionalMudando as estruturasDaquele material.É a recristalizaçãoDobra, foliação...A Ardósia é a primeiraNo grau de metamorfismoDepois vem o Filito,Que é anterior ao Xisto.O Gnaisse é bandadoE o migmatito, ondulado...Qualquer das rochasEstá sujeita à alteração,Em se tratando de um cicloAberto à ocasião.Pois a natureza não erra,Quando compõe a Terra:É pura imaginação!Leandro Caetano de Magalhães

TecnologiaPipas (*) não mais são alçadas.Inexistem crianças nas calçadas.Não vejo pernas raladas,Apenas pontas de dedos calejadas.Uma juventude robotizada,“Gigabytes” de memória aguçada,Praticamente não esquecem nada,Quando esquecem, no computador dão uma olhada.Adolescentes em busca de namoradas,Salas de bate-papo on-line lotadas.E a nossa criatividade sempre apontada.Pela tecnologia é totalmente ofuscada.E com isso a imaginação é congelada,Parada, obstruída... Assassinada.Para a diversão, basta uma busca caprichada...Na internet, a qualquer clique damos uma gargalhada.Poesias no computador são digitadas,Não existem mais rascunhos com palavras riscadas.Não acredito... Vendi-me a tecnologia apresentada,Acho que a simplicidade de cadernos de poesia foi trocada...(*) à papagaio de papelLuan Mordegane Pupo

FísicaColho esta luz solar à minha volta,no meu prisma e disperso e recomponho:rumor de sete cores, silêncio branco.Como flechas disparadas do seu arco,do violeta ao vermelho percorremoso inteiro espaço que aberto no suspirose remata convulso em grito rouco.Depois todo o rumor se reconvertetornam as cores ao prisma que defineà luz solar de ti ao silêncio.José Saramago

SoluçãoEu quero uma soluçãohomogénea, preparada,coisa certa, controladapara ter tudo na mão.Solução para questãoque não ouso resolver.Diluída num balãoelixir p'ra me entreter.Faço centrifugaçãopara ter ar uniformeuso varinha conforme,seja mágica ou não.Busco uma soluçãotudo lindo, direitinhoeu quero ter tudo certinhoter o mundo nesta mão.Procuro mistura, entãoaqueço tudo em cadinho.E vejo não ter soluçãomas apenas um caminho...João Paiva

AUTOPSICOGRAFIAO poeta é um fingidor.Finge tão completamenteQue chega a fingir que é dorA dor que deveras sente.E os que lêem o que escreve,Na dor lida sentem bem,Não as duas que ele teve,Mas só a que eles não têm.E assim nas calhas de rodaGira, a entreter a razão,Esse comboio de cordaQue se chama coração.Fernando PessoaDito por David Fonseca: https://www.youtube.com/watch?v=rAZNcgT0E00

Poema para GalileoEstou olhando o teu retrato, meu velho pisano,aquele teu retrato que toda a gente conhece,em que a tua bela cabeça desabrocha e florescesobre um modesto cabeção de pano.Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.Disse Galeria dos Ofícios.)Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…Eu sei… Eu sei…As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.Ai que saudade, Galileo Galilei!Olha. Sabes? Lá em Florençaestá guardado um dedo da tua mão direita num relicário.Palavra de honra que está!As voltas que o mundo dá!Se calhar até há gente que pensaque entraste no calendário.Eu queria agradecer-te, Galileo,a inteligência das coisas que me deste.Eu,e quantos milhões de homens como eua quem tu esclareceste,ia jurar - que disparate, Galileo!- e jurava a pés juntos e apostava a cabecasem a menor hesitação -que os corpos caem tanto mais depressaquanto mais pesados são.Pois não é evidente, Galileo?Quem acredita que um penedo caiacom a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?Esta era a inteligência que Deus nos deu.Estava agora a lembrar-me, Galileo,daquela cena em que tu estavas sentado num escabeloe tinhas à tua frenteum friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capeloa olharem-te severamente.Estavam todos a ralhar contigo,que parecia impossível que um homem da tua idadee da tua condição,se estivesse tornando num perigopara a Humanidadee para a Civilização.Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,e percorrias, cheio de piedade,os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,desceram lá das suas alturase poisaram, como aves aturdidas - parece que estou a vê-las -,nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qualconforme suas eminências desejavam,e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonale que os astros bailavam e entoavamà meia-noite louvores à harmonia universal.E juraste que nunca mais repetiriasnem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,aquelas abomináveis heresiasque ensinavas e escreviaspara eterna perdição da tua alma.Ai, Galileo!Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,andavam a correr e a rolar pelos espaçosà razão de trinta quilómetros por segundo.Tu é que sabias, Galileo Galilei.Por isso eram teus olhos misericordiosos,por isso era teu coração cheio de piedade,piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditososa quem Deus dispensou de buscar a verdade.Por isso estoicamente, mansamente,resististe a todas as torturas,a todas as angústias, a todos os contratempos,enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,foram caindo,caindo,caindo,caindo,caindo sempre,e sempre,ininterruptamente,na razão directa dos quadrados dos tempos. António GedeãoDito por Mário Viegas:https://www.youtube.com/watch?v=nFUNeV8acN8

Ensino BásicoO MostrengoO mostrengo que está no fim do marNa noite de breu ergueu-se a voar;A roda da nau voou três vezes,Voou três vezes a chiar,E disse: «Quem é que ousou entrarNas minhas cavernas que não desvendo,Meus tectos negros do fim do mundo?»E o homem do leme disse, tremendo:«El-Rei D. João Segundo!»«De quem são as velas onde me roço?De quem as quilhas que vejo e ouço?»Disse o mostrengo, e rodou três vezes,Três vezes rodou imundo e grosso.«Quem vem poder o que só eu posso,Que moro onde nunca ninguém me visseE escorro os medos do mar sem fundo?»E o homem do leme tremeu, e disse:«El-Rei D. João Segundo!»Três vezes do leme as mãos ergueu,Três vezes ao leme as reprendeu,E disse no fim de tremer três vezes:«Aqui ao leme sou mais do que eu:Sou um povo que quer o mar que é teu;E mais que o mostrengo, que me a alma temeE roda nas trevas do fim do mundo,Manda a vontade, que me ata ao leme,De El-Rei D. João Segundo!»Fernando PessoaDito por João Villaret:https://www.youtube.com/watch?v=L5Ihd-ECpYMEnsino SecundárioPerguntas de um Operário LetradoQuem construiu Tebas, a das sete portas?Nos livros vem o nome dos reis,Mas foram os reis que transportaram as pedras?Babilónia, tantas vezes destruída,Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casasDa Lima Dourada moravam seus obreiros?No dia em que ficou pronta a Muralha da China para ondeForam os seus pedreiros? A grande RomaEstá cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quemTriunfaram os Césares? A tão cantada BizâncioSó tinha paláciosPara os seus habitantes? Até a legendária AtlântidaNa noite em que o mar a engoliuViu afogados gritar por seus escravos.O jovem Alexandre conquistou as ÍndiasSozinho?César venceu os gauleses.Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?Quando a sua armada se afundou Filipe de EspanhaChorou. E ninguém mais?Frederico II ganhou a guerra dos sete anosQuem mais a ganhou?Em cada página uma vitória.Quem cozinhava os festins?Em cada década um grande homem.Quem pagava as despesas?Tantas históriasQuantas perguntasBertolt Brecht

MapaPlano como a mesana qual está colocado.Debaixo dele nada se movenem busca vazão.Sobre ele - meu hálito humanonão cria vórtices de are deixa toda a sua superfícieem silêncio.Suas planícies, vales, são sempre verdes,os planaltos, montanhas, amarelos e marronse os mares, oceanos, de um azul delicadonas margens fendidas.Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,acariciar os polos sem luvas grossas.Com um olhar possoabarcar cada desertojunto com o rio logo ali ao lado.Selvas são assinaladas com arvorezinhasentre as quais seria difícil se perder.No Ocidente e Orienteacima e abaixo do equador —assentou-se um manso silêncio.Pontinhos pretos significamque ali vivem pessoas.Valas comuns e súbitas ruínasnão cabem nesse quadro.As fronteiras dos países mal são visíveiscomo se hesitassem entre ser e não ser.Gosto dos mapas porque mentem.Porque não dão acesso à dura verdade.Porque, generosos e bem-humorados,estendem-me na mesa um mundoque não é deste mundo.(Wisława Szymborska - Tradução: Regina Przybycień)

POÉTICA DE MERCADOQuanto maior o risco,Maior o lucro, dizem uns.Cansei de riscar e arriscar poemas!Nada mais ganhei do que dívidasE dúvidas: com o português e as letras e as coisas…Meu lastro poético continua esteticamente inútil.Quem dera se uma letra minha se tornasseDe crédito: imobiliário ou agrícola!Ah, se minhas palavras valessem como açõesE estivessem sempre em alta,Prontas para a melhor venda!Quanta sorte eu teria se minhas frasesFossem títulos públicos de um tesouro diretoOu um certificado de depósito bancário ou interbancário!O problema é que minha poesia não rende, fixa-seE me afundo nos fundos das ações que ficam imóveis.Resta-me, talvez, apostar nos debêntures dos antigos poetasE nos derivativos dos que estão por vir.Se o passado não garante o futuro,Quem é o futuro para garantir um passo dado?É preciso, pois, fazer alquimia:Transformar ouro em um padrãoQue tenha como lastro a Poesia.Anónimo

Aula de ginástica: não querochegar atrasado.Não posso perder o aquecimentoque se faz de braços lentos, de quadris perfeitos,de lado direito semelhante ao esquerdo.Preciso me concentrar, como separa cada movimentoeu escrevesse a mesma palavra em vários idiomas.A perna devagar se levantae lentamente vai ao chão para esmagaro que depois veremos.Pouco a pouco fico prontopara a luta:que venham as mais ferozes forças,como os furacões no mar da América Central,pois eu já estou feito.O exercício me vicia em ser veloz,mas foi apenas somando cada ondaque cheguei a formar isso que sou:um corpo que o naufrágio abandonou.Felipe Fortuna

DesenhoNo papel brancodesenharei um Solbem amareloe no alto dum monteum enorme casteloentre campos lavradose povoarei a terrade cavaleiros e de soldados.Às nuvens dareia forma de gente(e haverá quem penseque são gente a sério…)e ouvir-se-ápela noite foraos uivos dos lobosaté vir a auroraque desfará o medoe o mistério…E chegará a noite...tombarei de sono...Castelo, soldados,e os campos lavradose os lobos esfaimadostudo deixareisobre o papelao abandono...Dormirei tranquiloe amanhã estareisentado no bancode novo a sonhar.e no papel brancodesenharei aquiloque hoje não fui capaz:um casteloum sol amareloe as pessoasem paz.Alice Vieira

Lágrima de pretaEncontrei uma pretaque estava a chorar,pedi-lhe uma lágrimapara a analisar.Recolhi a lágrimacom todo o cuidadonum tubo de ensaiobem esterilizado.Olhei-a de um lado,do outro e de frente:tinha um ar de gotamuito transparente.Mandei vir os ácidos,as bases e os sais,as drogas usadasem casos que tais.Ensaiei a frio,experimentei ao lume,de todas as vezesdeu-me o que é costume:Nem sinais de negro,nem vestígios de ódio.Água (quase tudo)e cloreto de sódio.António GedeãoMusicado e cantado por Manuel Freire:https://www.youtube.com/watch?v=v2AXsH_miaQ

Sabes leitor, que estamos ambos na mesma páginaE aproveito o facto de teres chegado agoraPara te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensarQue te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempreApesar de nós.Esta raiz para a palavra que ela lançou no poemaPode bem significar que no ramo que ficar desse ladoA flor que se abrir é já um pouco de ti, e a flor que te estendo,Mesmo que a recusesNunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,A colherei.A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombraE eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.Daniel FariaAs árvores como os livros têm folhase margens lisas ou recortadas,e capas (isto é copas) e capítulosde flores e letras de oiro nas lombadas.E são histórias de reis, histórias de fadas,as mais fantásticas aventuras,que se podem ler nas suas páginas,no pecíolo, no limbo, nas nervuras.As florestas são imensas bibliotecas,e até há florestas especializadas,com faias, bétulas e um letreiroa dizer: «Floresta das zonas temperadas».É evidente que não podes plantarno teu quarto, plátanos ou azinheiras.Para começar a construir uma biblioteca,basta um vaso de sardinheiras.Jorge Sousa Braga