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Breve abordagem do romance

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Um livro extraordinário para assinalar o Dia Internacional da Mulher e a Semana da Leitura

Filosofia

11º H

Excerto de "Recordações do futuro", de Siri Hustvedt“A maioria das provas académicas está há muito tempo do lado da Baronesa. Em primeiro lugar, temos a carta de Duchamp escreveu à irmã, Susanne, dois dias depois de o urinol ter sido rejeitado. Só foi descoberta em 1982. Nela, ele escreveu: “uma das minhas amigas que adotara o pseudónimo de Richard Mutt enviou-me um urinol de porcelana como escultura.” Em segundo lugar, sabemos que um jornal relatou na época que o artista Richard Mutt era de Filadélfia. Na época, a Baronesa vivia em Filadélfia. Em terceiro lugar, sabemos que foi só depois de a Baronesa e Stieglitz terem morrido que Duchamp assumiu a autoria do urinol. Em quarto lugar, Duchamp declarou ter comprado o objeto sanitário na J. L. Mott Ironworks, mas a J. L. Mott Ironworks não vendia o modelo que foi apresentado para a exposição. Há quem diga que deve ter sido um erro de memória da parte dele, mas isso é pouco provável porque a explicação dele para R. Mutt é que Mutt é uma derivação de Mott. Trata-se se uma transposição estranhamente trapalhona, não achas? Depois, disse que a intenção por trás desse Mutte era evocar a personagem Mutt dos desenhos animados Mutt e Jeff. Essa versão também não pega, pois não?, uma desculpa atamancada que destoa do habitual engenho do francês.[…]“Duchamp roubou-o, podes crer que roubou. Nem sequer é parecido com o resto da obra dele. O fulano era todo ele, refinado, elegante, decoroso, um presumido que se ria delicadamente das suas piadinhas. O senhor Xadrez. A Fontenão encaixa, mas os museus continuam a atribui-lhe a peça. É dele.“Mas… e se sempre se tivesse considerado a Baronesa como o cérebro por trás da Fonte? disse a Detetive Introspetiva, com uma expressão irónica. – Então, não se teria tornado o que é hoje. Não seria uma grande peça excetuando umas quantas personagens marginais, quem é que se interessaria por uma poeta louca que se transformava a si própria em obra de arte e que, numa das suas partidas, assinou um urinol? Duchamp permitiu que o urinol desaparecido fosse reproduzido anos depois de ter sido deitado fora. Por essa altura, ele tinha a chave na mão e era fácil enfiá-la na fechadura, rodá-la, abrir a porta entrar na história futura que já se desenrolava na sala ao lado: O Grande Pai da Arte conceptual. Em 2004, quinhentos profissionais especialmente selecionados e altamente conceituados do mundo da arte no Reino Unido elegeram a Fonte como a obra de arte mais influente do século XX.”Hustvedt, Siri (2020). Recordações do Futuro. Lisboa: Dom Quixote (pp. 324-346 ).