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Interpretação de poemas de Língua Portuguesa

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Nota explicativa

Poemas 1

Poemas 2

Poemas 3

CatálogoPoesia

Fernando PessoaEros e PsiqueDito porMaria BethâniaConta a lenda que dormiaUma Princesa encantadaA quem só despertariaUm Infante, que viriaDe além do muro da estradaEle tinha que, tentado,Vencer o mal e o bem,Antes que, já libertado,Deixasse o caminho erradoPor o que à Princesa vem.A Princesa Adormecida,Se espera, dormindo espera.Sonha em morte a sua vida,E orna-lhe a fronte esquecida,Verde, uma grinalda de hera.Longe o Infante, esforçado,Sem saber que intuito tem,Rompe o caminho fadado.Ele dela é ignorado.Ela para ele é ninguém.Mas cada um cumpre o Destino —Ela dormindo encantada,Ele buscando-a sem tinoPelo processo divinoQue faz existir a estrada.E, se bem que seja obscuroTudo pela estrada fora,E falso, ele vem seguro,E, vencendo estrada e muro,Chega onde em sono ela mora.E, inda tonto do que houvera,À cabeça, em maresia,Ergue a mão, e encontra hera,E vê que ele mesmo eraA Princesa que dormia.

Fernando PessoaO amor, quando se revelaInterpretado porSalvador Sobral (Presságio)O amor, quando se revela,Não se sabe revelar.Sabe bem olhar p'ra ela,Mas não lhe sabe falar.Quem quer dizer o que senteNão sabe o que há-de dizer.Fala: parece que mente...Cala: parece esquecer...Ah, mas se elaadivinhasse,Se pudesse ouvir o olhar,E se um olhar lhe bastasseP'ra saber que a estão a amar!Mas quem sente muito, cala;Quem quer dizer quanto senteFica sem alma nem fala,Fica só, inteiramente!Mas se isto puder contar-lheO que não lhe ouso contar,Já não terei que falar-lhePorque lhe estou a falar...

Alda LaraPrelúdioInterpretado porPaulo de Carvalho e Matias Damásio(Mãe Negra) Pela estrada desce a noiteMãe-Negra, desce com ela... Nem buganvílias vermelhas,nem vestidinhos de folhos,nem brincadeiras de guisos,nas suas mãos apertadas.Só duas lágrimas grossas,em duas faces cansadas. Mãe-Negra tem voz de vento,voz de silêncio batendonas folhas do cajueiro... Tem voz de noite, descendo,de mansinho, pela estrada... Que é feito desses meninosque gostava de embalar?... Que é feito desses meninosque ela ajudou a criar?...Quem ouve agora as históriasque costumava contar?... Mãe-Negra não sabe nada... Mas ai de quem sabe tudo,como eu sei tudoMãe-Negra!... Os teus meninos cresceram,e esqueceram as históriasque costumavas contar... Muitos partiram p'ra longe,quem sabe se hão-de voltar!... Só tu ficaste esperando,mãos cruzadas no regaço,bem quieta bem calada. É a tua a voz deste vento,desta saudade descendo,de mansinho pela estrada.

António GedeãoLágrima de PretaInterpretado porAdriano Correia de Oliveira Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.

António GedeãoPedra FilosofalInterpretado porManuel FreireEles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer,como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Alexandre O'NeillHá palavras que nos beijamCantado porMarizaHá palavras que nos beijamComo se tivessem boca,Palavras de amor, de esperança,De imenso amor, de esperança louca.Palavras nuas que beijasQuando a noite perde o rosto,Palavras que se recusamAos muros do teu desgosto.De repente coloridasEntre palavras sem cor,Esperadas, inesperadasComo a poesia ou o amor.(O nome de quem se amaLetra a letra reveladoNo mármore distraído,No papel abandonado)Palavras que nos transportamAonde a noite é mais forte,Ao silêncio dos amantesAbraçados contra a morte.

José RégioCântico negroDito porDiogo Infante"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos docesEstendendo-me os braços, e segurosDe que seria bom que eu os ouvisseQuando me dizem: "vem por aqui!"Eu olho-os com olhos lassos,(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)E cruzo os braços,E nunca vou por ali...A minha glória é esta:Criar desumanidade!Não acompanhar ninguém.- Que eu vivo com o mesmo sem-vontadeCom que rasguei o ventre à minha mãeNão, não vou por aí! Só vou por ondeMe levam meus próprios passos...Se ao que busco saber nenhum de vós respondePor que me repetis: "vem por aqui!"?Prefiro escorregar nos becos lamacentos,Redemoinhar aos ventos,Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,A ir por aí...Se vim ao mundo, foiSó para desflorar florestas virgens,E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!O mais que faço não vale nada.Como, pois sereis vósQue me dareis impulsos, ferramentas e coragemPara eu derrubar os meus obstáculos?...Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,E vós amais o que é fácil!Eu amo o Longe e a Miragem,Amo os abismos, as torrentes, os desertos...Ide! Tendes estradas,Tendes jardins, tendes canteiros,Tendes pátria, tendes tectos,E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...Eu tenho a minha Loucura !Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;Mas eu, que nunca principio nem acabo,Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!Ninguém me peça definições!Ninguém me diga: "vem por aqui"!A minha vida é um vendaval que se soltou.É uma onda que se alevantou.É um átomo a mais que se animou...Não sei por onde vou,Não sei para onde vou- Sei que não vou por aí!

António Lobo AntunesDisse-te adeus à partidaInterpretado porKátia GuerreiroDisse-te adeus á partidaDigo-te adeus á chegadaSe quero tudo na vidaJá de ti, não quero nadaSe quero tudo na vidaJá de ti, não quero nadaDisse-te adeus e depoisFiquei no mesmo lugarNo leito de nós os doisSó tem raízes no meioNo leito de nós os doisSó tem raízes no meioDizer adeus é diferenteQuando te digo baixinhoNo meio de tanta genteÉ que me sinto sozinhoNo meio de tanta genteÉ que me sinto sozinhoComo a gaivota na vozDisse-te adeus e partiSe esta cama somos nósNão hei de morrer sem tiSe esta cama somos nósNão hei de morrer sem ti

Sérgio GodinhoO primeiro diaInterpretado porSérgio GodinhoA princípio é simples, anda-se sozinhoPassa-se nas ruas bem devagarinhoEstá-se bem no silêncio e no burburinhoBebe-se as certezas num copo de vinhoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaPouco a pouco o passo faz-se vagabundoDá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundoDiz-se do passado, que está moribundoBebe-se o alento num copo sem fundoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaE é então que amigos nos oferecem leitoEntra-se cansado e sai-se refeitoLuta-se por tudo o que se leva a peitoBebe-se, come-se e alguém nos diz: Bom proveitoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaDepois vêm cansaços e o corpo fraquejaOlha-se para dentro e já pouco sobejaPede-se o descanso, por curto que sejaApagam-se dúvidas num mar de cervejaE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaEnfim duma escolha faz-se um desafioEnfrenta-se a vida de fio a pavioNavega-se sem mar, sem vela ou navioBebe-se a coragem até dum copo vazioE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaE entretanto o tempo fez cinza da brasaE outra maré cheia virá da maré vazaNasce um novo dia e no braço outra asaBrinda-se aos amores com o vinho da casaE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Regina GuimarãesAsas DeltaInterpretado porClãHei, tenho asas nos péstenho asasHei tenho molas nos pése saltoSinto um formigueironas mãos e nos braçospassarinhos na cabeçaCata-vento nos ouvidosmil antenas nos cabelosQuem me leva tenho pressaPé de cabra, pé de dançaDançar por gosto não cansaNão vou só, levo o meu bandoa dança nos vai juntandoHei, tenho asas nos péstenho asasHei tenho molas nos pése saltoSe me pesa o traseirolevanto o meu narizperco o medo e a vergonhaFecho os olhos aí voue já não estou onde estounem sei quando posso pararPé de cabra, pé de dançaDançar por gosto não cansaNão vou só, levo o meu bandoa dança nos vai juntandoHei, tenho asas nos péstenho asasHei tenho molas nos pésE saltoMais alto

Jorge PalmaEncosta-te a mimInterpretado porJorge PalmaEncosta-te a mimNós já vivemos cem mil anosEncosta-te a mimTalvez eu esteja a exagerarEncosta-te a mimDá cabo dos teus desenganosNão queiras ver quem eu não souDeixa-me chegarChegado da guerraFiz tudo p´ra sobreviver, em nome da terraNo fundo p´ra te merecerRecebe-me bemNão desencantes os meus passosFaz de mim o teu heróiNão quero adormecerTudo o que eu viEstou a partilhar contigoO que não vivi, hei-de inventar contigoSei que não seiÀs vezes entender o teu olharMas quero-te bemEncosta-te a mimEncosta-te a mimDesatinamos tantas vezesVizinha de mimDeixa ser meu o teu quintalRecebe esta pomba que não está armadilhadaFoi comprada, foi roubada, seja como forEu venho do nadaPorque arrasei o que não quisEm nome da estrada, onde só quero ser felizEnrosca-te a mimVai desarmar a flor queimadaVai beijar o homem-bomba, quero adormecerTudo o que eu viEstou a partilhar contigo, e o que não viviUm dia hei-de inventar contigoSei que não sei, às vezes entender o teu olharMas quero-te bemEncosta-te a mimEncosta-te a mimQuero-te bemEncosta-te a mim

Pedro AbrunhosaPara os braços da minha mãeCantado porPedro Abrunhosa e CamanéCheguei ao fundo da estrada,Duas léguas de nada,Não sei que força me mantém.É tão cinzenta a AlemanhaE a saudade tamanha,E o verão nunca mais vem.Quero ir para casaEmbarcar num golpe de asa,Pisar a terra em brasa,Que a noite já aí vem.Quero voltarPara os braços da minha mãe,Quero voltarPara os braços da minha mãe.Trouxe um pouco de terra,Cheira a pinheiro e a serra,Voam pombasNo beiral.Fiz vinte anos no chão,Na noite de Amsterdão,Comprei amorPelo jornal.Quero ir para casaEmbarcar num golpe de asa,Pisar a terra em brasa,Que a noite já aí vem.Quero voltarPara os braços da minha mãe,Quero voltarPara os braços da minha mãe.Vim em passo de bala,Um diploma na mala,Deixei o meu amor p’ra trás.Faz tanto frio em Paris,Sou já memória e raiz,Ninguém sai donde tem Paz.Quero ir para casaEmbarcar num golpe de asa,Pisar a terra em brasa,Que a noite já aí vem.Quero voltarPara os braços da minha mãe,Quero voltarPara os braços da minha mãe.

Pedro AbrunhosaQuem me leva os meus fantasmasCantado porMaria BethâniaAquele era o tempoEm que as mãos se fechavamE nas noites brilhantes as palavras voavamEu via que o céu me nascia dos dedosE a Ursa Maior eram ferros acesosMarinheiros perdidos em portos distantesEm bares escondidosEm sonhos gigantesE a cidade vaziaDa cor do asfaltoE alguém me pedia que cantasse mais altoQuem me leva os meus fantasmasQuem me salva desta espadaQuem me diz onde é a estrada?Aquele era o tempoEm que as sombras se abriamEm que homens negavamO que outros erguiamE eu bebia da vida em goles pequenosTropeçava no riso, abraçava venenosDe costas voltadas não se vê o futuroNem o rumo da balaNem a falha no muroE alguém me gritavaCom voz de profetaQue o caminho se fazEntre o alvo e a setaQuem leva os meus fantasmasQuem me salva desta espadaQuem me diz onde é a estrada?De que serve ter o mapaSe o fim está traçadoDe que serve a terra à vistaSe o barco está paradoDe que serve ter a chaveSe a porta está abertaDe que servem as palavrasSe a casa está deserta?Quem me leva os meus fantasmasQuem me salva desta espadaQuem me diz onde é a estrada?

Regina GuimarãesO mundo a meus pésCantado porTrês Tristes TigresFalta o nome, falha o cheiroTudo forte tudo feioNão me lembro de ter gostadode me ter custadoJá não há, Já não ésO mundo a meus pés.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.Falta o lume, falha a chamaFaço a mala, faço a camaNão me lembro de ter sonhadoDe ter enganado.Falta o nome, falha o cheiroTudo forte tudo feioNão me lembro de ter gostadode me ter custadoJá não há, Já não ésO mundo a meus pés.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.Faça o favorDe entrar sem pedir licença.Não pense no que dizNem diga o que pensa.Falta o nome, falha o cheiroTudo forte tudo feioNão me lembro de ter gostadode me ter custadoFalta o lume, falha a chamaFaço a mala, faço a camaNão me lembro de ter sonhadoDe ter enganado.Faça o favorDe entrar sem fazer barulhoRien ne va plusAprenda a jogar seguro.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.

MárciaA pele que há em miminterpretado porMárcia e JP Simões Quando o dia entardeceuE o teu corpo tocouNum recanto do meuUma dança acordouE o sol apareceuDe gigante ficouNum instante apagouO sereno do céuE a calma a aguardar lugar em mimO desejo a contar segundo o fim.Foi num ar que te deuE o teu canto mudouE o teu corpo no meuUma trança arrancouE o sangue arrefeceuE o meu pé aterrouMinha voz sussurrouO meu sonho morreuDá-me o mar, o meu rio, minha calçada.Dá-me o quarto vazio da minha casaVou deixar-te no fio da tua fala.Sobre a pele que há em mimTu não sabes nada.Quando o amor se acabouE o meu corpo esqueceuO caminho onde andouNos recantos do teuE o luar se apagouE a noite emudeceuO frio fundo do céuFoi descendo e ficou.Mas a mágoa não mora mais em mimJá passou, desgasteiPara lá do fimÉ preciso partirÉ o preço do amorPara voltar a viverJá nem sinto o saborA suor e pavorDo teu colo a ferverDo teu sangue de florJá não quero saber.

Chico BuarqueA BandaInterpretado porChico Buarque O homem sério que contava dinheiro parouO faroleiro que contava vantagem parouA namorada que contava as estrelasParou para ver, ouvir e dar passagemA moça triste que vivia calada sorriuA rosa triste que vivia fechada se abriuE a meninada toda se assanhouPra ver a banda passarCantando coisas de amorEstava à toa na vidaO meu amor me chamouPra ver a banda passarCantando coisas de amorA minha gente sofridaDespediu-se da dorPra ver a banda passarCantando coisas de amorO velho fraco se esqueceu do cansaço e pensouQue ainda era moço pra sair no terraço e dançouA moça feia debruçou na janelaPensando que a banda tocava pra elaA marcha alegre se espalhou na avenida e insistiuA lua cheia que vivia escondida surgiuMinha cidade toda se enfeitouPra ver a banda passar cantando coisas de amorMas para meu desencantoO que era doce acabouTudo tomou seu lugarDepois que a banda passouE cada qual no seu cantoEm cada canto uma dorDepois da banda passarCantando coisas de amorDepois da banda passarCantando coisas de amor

Alexandre O'NeillPoema de desamorInterpretado porTiago BettencourtDesmama-te desanca-te desbunda-teNão se pode morar nos olhos de um gatoBeija embainha grunhe gemeNão se pode morar nos olhos de um gatoServe-te serve sorve lambe trincaNão se pode morar nos olhos de um gatoQueixa-te coxa-te desnalga-te desalma-teNão se pode morar nos olhos de um gatoArfa arqueja moleja aleijaNão se pode morar nos olhos de um gatoFerra marca dispara enodoaNão se pode morar nos olhos de um gatoFaz festa protesta desembestaNão se pode morar nos olhos de um gatoArranha arrepanha apanha espancaNão se pode morar nos olhos de um gato

David Mourão_FerreiraSoneto do amor difícilCantado porTiago BettencourtA praia abandonada recomeçalogo que o mar se vai, a desejá-lo:é como o nosso amor, somente embaloenquanto não é mais que uma promessa...Mas se na praia a onda se espedaça,há logo a nostalgia duma florque ali devia estar para compora vaga em seu rumor de fim de raça.Bruscos e doloridos, refulgimosno silêncio da morte que nos tolhe,como entre o mar e a praia um longo molhede súbito surgido à flor dos limos.E deste amor difícil só nasceudesencanto na curva do teu céu.

José Carlos Ary dos SantosCavalo à soltaInterpretado porFernando Tordo e Jorge PalmaMinha laranja amarga e docemeu poemafeito de gomos de saudademinha penapesada e levesecreta e puraminha passagem para o breve, breveinstante da loucuraMinha ousadiameu galopeminha rédeameu potro doidominha chamaminha réstiade luz intensade voz abertaminha denúncia do que pensado que sente a gente certaEm ti respiroem ti eu provopor ti consigoesta força que de novoem ti persigoem ti percorrocavalo à soltapela margem do teu corpoMinha alegriaminha amarguraminha coragem de correr contra a ternura.Por isso digocanção castigoamêndoa travo corpo alma amante amigopor isso cantopor isso digoalpendre casa cama arca do meu trigoMeu desafiominha aventuraminha coragem de correr contra a ternura

Sophia de Mello Breyner AndresenSei que estou sóCantado porTiago BettencourtSei que estou só e gelo entre as folhagensNenhuma gruta me pode protegerComo um laço deslaça-se o meu serE nos meus olhos morrem as paisagens.Desligo da minha alma a melodiaQue inventei no ar. Tombo das imagensComo um pássaro morto das folhagensTombando se desfaz na terra fria.

valter hugo mãeContabilidadeInterpretado porMárcia, Camané e Dead Combovenho para te cortar osdedos em moedas pequenas ecom elas pagar ao coração omal que me fizesteo pior amor é este, o que já éfeito de ódio também. o pior amoré este, o que já é feito de ódio também,o pior é o amor é este, o quejá é feito de ódio também

Adília LopesA propósito de estrelasCantado porArthur Nogueira Não sei se me interessei pelo rapazpor ele se interessar por estrelasse me interessei por estrelas por me interessarpelo rapaz hoje quando penso no rapazpenso em estrelas e quando penso em estrelaspenso no rapaz como me pareceque me vou ocupar com as estrelasaté ao fim dos meus dias parece-me quenão vou deixar de me interessar pelo rapazaté ao fim dos meus diasnunca saberei se me interesso por estrelasse me interesso por um rapaz que se interessapor estrelas já não me lembrose vi primeiro as estrelasse vi primeiro o rapazse quando vi o rapaz vi as estrelas

José Mário BrancoInquietaçãoInterpretado porCamané e Dead ComboA contas com o bem que tu me fazesA contas com o mal por que passeiCom tantas guerras que traveiJá não sei fazer as pazesSão flores aos milhões entre ruínasMeu peito feito campo de batalhaCada alvorada que me ensinasOiro em pó que o vento espalhaCá dentro inquietação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaHá sempre qualquer coisa que está pra acontecerQualquer coisa que eu devia perceberPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaEnsinas-me fazer tantas perguntasNa volta das respostas que eu traziaQuantas promessas eu fariaSe as cumprisse todas juntasNão largues esta mão no torvelinhoPois falta sempre pouco para chegarEu não meti o barco ao marPra ficar pelo caminhoCá dentro inqueitação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaHá sempre qualquer coisa que está pra acontecerQualquer coisa que eu devia perceberPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaCá dentro inquietação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiMas seiÉ que não sei aindaHá sempre qualquer coisa que eu tenho que fazerQualquer coisa que eu devia resolverPorquê, não seiMas seiQue essa coisa é que é linda

Carlos TêA gente não lêInterpretado porRui VelosoAi, senhor das furnasQue escuro vai dentro de nósRezar o terço ao fim da tardeSó para espantar a solidãoE rogar a Deus que nos guardeConfiar-lhe o destino na mãoQue adianta saber as marésOs frutos e as sementeirasTratar por tu os ofíciosEntender o suão e os animaisFalar o dialeto da terraConhecer-lhe o corpo pelos sinaisE do resto entender malSoletrar, assinar em cruzNão ver os vultos furtivosQue nos tramam por trás da luzAi, senhor das furnasQue escuro vai dentro de nósA gente morre logo ao nascerCom olhos rasos de lezíriaDe boca em boca passando o saberCom os provérbios que ficam na gíriaDe que nos vale esta purezaSem ler fica-se pederneiraAgita-se a solidão cá, no fundoFica-se sentado à soleiroA ouvir os ruídos do mundoE a entendê-los à nossa maneiraE carregar a superstiçãoDe ser pequeno, ser ninguémE não quebrar a tradiçãoQue dos nossos avós já vêm

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)Ai, MargaridaCantado porCamané (acompanhado por Mário Laginha)Ai, Margarida,Se eu te desse a minha vida,Que farias tu com ela?— Tirava os brincos do prego,Casava c'um homem cegoE ia morar para a Estrela.Mas, Margarida,Se eu te desse a minha vida,Que diria tua mãe?— (Ela conhece-me a fundo.)Que há muito parvo no mundo,E que eras parvo também.E, Margarida,Se eu te desse a minha vidaNo sentido de morrer?— Eu iria ao teu enterro,Mas achava que era um erroQuerer amar sem viver.Mas, Margarida,Se este dar-te a minha vidaNão fosse senão poesia?— Então, filho, nada feito.Fica tudo sem efeito.Nesta casa não se fia.Comunicado pelo Engenheiro Naval Sr. Álvaro de Campos em estado de inconsciência alcoólica.

Fernando PessoaGato que brincas na ruaInterpretado porVivianeGato que brincas na ruaComo se fosse na cama,Invejo a sorte que é tuaPorque nem sorte se chama.Bom servo das leis fataisQue regem pedras e gentes,Que tens instintos geraisE sentes só o que sentes.És feliz porque és assim,Todo o nada que és é teu.Eu vejo-me e estou sem mim,Conheço-me e não sou eu.

Mário de Sá-CarneiroFimCantado porTrovanteQuando eu morrer batam em latas,Rompam aos saltos e aos pinotes,Façam estalar no ar chicotes,Chamem palhaços e acrobatas!Que o meu caixão vá sobre um burroAjaezado à andaluza:A um morto nada se recusa,E eu quero por força ir de burro!...

12Pedro Homem de MelloPovo que lavas no rioInterpretado porAmália Rodrigues (1) acompanhada por Don Byas António Variações (2)Povo que lavas no rioE que talhas com o teu machadoAs tábuas de meu caixãoPovo que lavas no rioQue talhas com o teu machadoAs tábuas do meu caixãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida nãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida nãoFui ter à mesa redondaBeber em malga que escondaO beijo de mão em mãoFui ter à mesa redondaBeber em malga que escondaO beijo de mão em mãoEra o vinho que me desteÁgua pura, fruto agresteMas a tua vida nãoO aroma de urze e de lamaDormi com eles na camaTive a mesma condiçãoO aroma de urze e de lamaDormi com eles na camaTive a mesma condiçãoPovo, povo, eu te pertençoDeste-me alturas de incensoMas a tua vida nãoPovo que lavas no rioQue talhas com o teu machadoAs tábuas de meu caixãoPovo que lavas no rioQue talhas com o teu machadoAs tábuas do meu caixãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida nãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida não.

Natália CorreiaQueixa das almas jovens censuradasCantado porJosé Mário BrancoDão-nos um lírio e um canivetee uma alma para ir à escolamais um letreiro que prometeraízes, hastes e corolaDão-nos um mapa imaginárioque tem a forma de uma cidademais um relógio e um calendárioonde não vem a nossa idadeDão-nos a honra de manequimpara dar corda à nossa ausência.Dão-nos um prémio de ser assimsem pecado e sem inocênciaDão-nos um barco e um chapéupara tirarmos o retratoDão-nos bilhetes para o céulevado à cena num teatroPenteiam-nos os crâneos ermoscom as cabeleiras das avóspara jamais nos parecermosconnosco quando estamos sósDão-nos um bolo que é a históriada nossa historia sem enredoe não nos soa na memóriaoutra palavra que o medoTemos fantasmas tão educadosque adormecemos no seu ombrosomos vazios despovoadosde personagens de assombroDão-nos a capa do evangelhoe um pacote de tabacodão-nos um pente e um espelhopra pentearmos um macacoDão-nos um cravo preso à cabeçae uma cabeça presa à cinturapara que o corpo não pareçaa forma da alma que o procuraDão-nos um esquife feito de ferrocom embutidos de diamantepara organizar já o enterrodo nosso corpo mais adianteDão-nos um nome e um jornalum avião e um violinomas não nos dão o animalque espeta os cornos no destinoDão-nos marujos de papelãocom carimbo no passaportepor isso a nossa dimensãonão é a vida, nem é a morte

Dom DinisAi flores, ai flores de verde pinhointerpretado porHelena de AlfonsoAi flores, ai flores do verde pinho,se sabedes novas do meu amigo?Ai Deus, e u é?Ai flores, ai flores do verde ramo,se sabedes novas do meu amado?Ai Deus, e u é?Se sabedes novas do meu amigo,aquel que mentiu do que pôs comigo?Ai Deus, e u é?Se sabedes novas do meu amado,aquel que mentiu do qui mi há jurado?Ai Deus, e u é?Vós me perguntardes polo voss'amigo,e eu bem vos digo que é sã'e vivo.Ai Deus, e u é?Vós me perguntardes polo voss'amado,e eu bem vos digo que é viv'e são.Ai Deus, e u é?E eu bem vos digo que é sã'e vivoe seera vosc'ant'o prazo saído.Ai Deus, e u é?E eu bem vos digo que é viv' e sãoe seera vosc'ant'o prazo passadoAi Deus, e u é?

Daniel JonasN4V2mixInterpretado porLisboa Poetry OrchestraDeverias tê-lo feitoCom um fazer realE não pensadoO nunca consumadoO nunca visitadoVisita-se uma vezE de vez o que se fezOu não se fezE agora pensas se o fossesQuem serias tu agoraSeria essa a tua horaOu esta da demoraDe não teres sidoO que deviasQuem há muito te deviasQue queres, que dizes?Ninguém te ouve, ninguém te houveNinguém te vale, ninguém que falePor ti e p'lo que fossesIrás de mim dizer a toda a genteQue não fui gente, apenas renteA alguém de quem se ausenteA vida aparente e sua espumaA sua brumaDe incertas madrugadasPassas a mão em conchaPela corcunda da dúvidaPalpas a conta dos anosA conta dos danosNos teus olhos madurosDos teus bons enganosE ante o espelho frio e fundo(espelho mau espelho mau)Que te devolve sorrisos durosDuas uvas te olhamO nunca vindimadoOs ossos transparentesA tua longa perguntaQue queres, que dizes?Ninguém te ouve, ninguém te houveNinguém te vale, ninguém que falePor ti e p'lo que fossesIrás de mim dizer a toda a genteQue não fui gente, apenas renteA alguém de quem se ausenteA vida aparente e sua espumaA sua brumaDe incertas madrugadasE nisso moras sem perdãoE tu em todo o ladoSouvenir de tudo, avenir de nadaDe todos os mundosDe mundo nenhumE tu porém nadaNada que te ouçaNada que te hajaNada que te valhaLenta estrada de nadaQue te leva a lado algumTransitória e demoradaQue queres, que dizes?Ninguém te ouve, ninguém te houveNinguém te vale, ninguém que falePor ti e p'lo que fossesIrás de mim dizer a toda a genteQue não fui gente, apenas renteA alguém de quem se ausenteA vida aparente e sua espumaA sua brumaDe incertas madrugadas

CapicuaLutaInterpretado porCapicua e Aline FrazãoHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosNem um som da sestaTu conheces as minhas fases todasComo a luaE desconheces que a vida mudaAté a tua lupaE que eu não sou a única que está diferenteE não há uma só critica ou vitima em julgamentoEis o reconhecimento vamos começar de novoReconhecermos os erros é conhecermos o outroFaz o que é suposto, recomeço é necessárioSeco as lagrimas do rosto em mais um aniversarioE confio que por muito que isto tudo seja um erroTem de haver a recompensa para se ser tao ingenuoE eu juro, finjo que pároDigo que saio mas não vouEu calo e quando faloEu nunca abro o jogo todoEu fico achando que arcoMas depois mato o que restouNão queimo entãoNão chega porque amor para mim é fogo!Insisto, eu não desisto ainda resisto a mais um testeSe não é isto, não existe porque amor tem de ser esteE eu deitava fogo à casa com palavras se pudesseEu punha o pe na estrada e não voltava mais a ver-teEu rezava se soubesse ou se desse algum resultadoE se houvesse alguma prece que mudasse o meu passadoPra não te ter tatuado a ferro quente no coloCom a frieza de que quem mata com uma lupa ao solPra não te ter sempre ao lado, em fantasma quando não estásSentindo que olhar para a frente é voltar andar para trásTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosNem um som da sestaTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosNem um som da sestaJuro, finjo que pároDigo que saio mas não vouEu calo e quando faloEu nunca abro o jogo todoEu fico achando que arcoMas depois mato o que restouNão queimo entãoNão chega porque amor para mim é fogo

José CraveirinhaQuero ser tamborInterpretado porNarf (Francisco Xavier Pérez Vásquez)Tambor está velho de gritarOh velho Deus dos homensdeixa-me ser tamborcorpo e alma só tamborsó tambor gritando na noite quente dos trópicos.Nem flor nascida no mato do desesperoNem rio correndo para o mar do desesperoNem zagaia temperada no lume vivo do desesperoNem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.Nem nada!Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terraSó tambor de pele curtida ao sol da minha terraSó tambor cavado nos troncos duros da minha terra.EuSó tambor rebentando o silêncio amargo da MafalalaSó tambor velho de sentar no batuque da minha terraSó tambor perdido na escuridão da noite perdida.Oh velho Deus dos homenseu quero ser tambore nem rioe nem flore nem zagaia por enquantoe nem mesmo poesia.Só tambor ecoando como a canção da força e da vidaSó tambor noite e diadia e noite só tamboraté à consumação da grande festa do batuque!Oh velho Deus dos homensdeixa-me ser tamborsó tambor!

Sophia de Mello Breyner AndresenCantata da PazInterpretado porFrancisco FanhaisVemos, ouvimos e lemosNão podemos ignorarVemos, ouvimos e lemosNão podemos ignorarVemos, ouvimos e lemosRelatórios da fomeO caminho da injustiçaA linguagem do terrorA bomba de HiroshimaVergonha de nós todosReduziu a cinzasA carne das criançasDÁfrica e VietnameSobe a lamentaçãoDos povos destruídosDos povos destroçadosNada pode apagarO concerto dos gritosO nosso tempo éPecado organizado.

Mário de Sá-CarneiroO outroInterpretado porAdriana CacanhottoEu não sou eu nem sou o outro,Sou qualquer coisa de intermédio:Pilar da ponte de tédioQue vai de mim para o Outro.

Adriana CalcanhottoFico assim sem vocêInterpretado porAdriana CacanhottoAvião sem asaFogueira sem brasaSou eu assim, sem vocêFutebol sem bolaPiu-Piu sem FrajolaSou eu assim, sem vocêPor que é que tem que ser assim?Se o meu desejo não tem fimEu te quero a todo instanteNem mil auto-falantesVão poder falar por mimAmor sem beijinhoBochecha sem ClaudinhoSou eu assim sem vocêCirco sem palhaçonamoro sem amassoSou eu assim sem vocêTô louca pra te ver chegarTô louca pra te ter nas mãosDeitar no teu abraçoRetomar o pedaçoQue falta no meu coraçãoEu não existo longe de vocêE a solidão é o meu pior castigoEu conto as horas pra poder te verMas o relógio tá de mal comigoPor quê? Por quê?Neném sem chupetaRomeu sem JulietaSou eu assim sem vocêCarro sem estradaQueijo sem goiabadaSou eu assim sem vocêPor que é que tem que ser assimSe o meu desejo não tem fimEu te quero a todo instanteNem mil alto-falantesvão poder falar por mimEu não existo longe de vocêE a solidão é o meu pior castigoEu conto as horas pra poder te verMas o relógio tá de mal comigoEu não existo longe de vocêE a solidão é o meu pior castigoEu conto as horas pra poder te verMas o relógio tá de mal comigo

Vasco Graça MouraTalvezInterpretado porCarminhoTalvez digas um dia o que me queres,Talvez não queiras afinal dizê-lo,Talvez passes a mão no meu cabelo,Talvez eu pense em ti talvez me esperes.Talvez, sendo isto assim, fosse melhorFalhar-se o nosso encontro por um trizTalvez não me afagasses como eu quis,Talvez não nos soubéssemos de cor.Mas não sei bem, respostas não mas dês.Vivo só de murmúrios repetidos,De enganos de alma e fome dos sentidos,Talvez seja cruel, talvez, talvez.Se nada dás, porém, nada te douNeste vaivém que sempre nos sustenta,E se a própria saudade nos inventa,Não sei talvez quem és mas sei quem sou.Se nada dás, porém, nada te douNeste vaivém que sempre nos sustenta,E se a própria saudade nos inventa,Não sei talvez quem és mas sei quem sou.

Carlos Drumond de AndradeAs sem razões do amorinterpretado porTunai e Milton Nascimento Eu te amo porque te amo.Não precisas ser amante,e nem sempre sabes sê-lo.Eu te amo porque te amo.Amor é estado de graçae com amor não se paga.Amor é dado de graça,é semeado no vento,na cachoeira, no eclipse.Amor foge a dicionáriose a regulamentos vários.Eu te amo porque não amobastante ou demais a mim.Porque amor não se troca,não se conjuga nem se ama.Porque amor é amor a nada,feliz e forte em si mesmo.Amor é primo da morte,e da morte vencedor,por mais que o matem (e matam)a cada instante de amor.

Manuel AlegreTrova do vento que passaInterpretado porAdriano Correia de Oliveira Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país. Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio - é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te crucificada nos braços negros da fome. E o vento não me diz nada só o silêncio persiste. Vi minha pátria parada à beira de um rio triste. Ninguém diz nada de novo se notícias vou pedindo nas mãos vazias do povo vi minha pátria florindo. E a noite cresce por dentro dos homens do meu país. Peço notícias ao vento e o vento nada me diz. Quatro folhas tem o trevo liberdade quatro sílabas. Não sabem ler é verdade aqueles pra quem eu escrevo. Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça há sempre alguém que semeia canções no vento que passa. Mesmo na noite mais triste em tempo de sevidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.

António Ramos RosaNão posso adiar o amorinterpretado porLinha da Frente Não posso adiar o amor para outro séculonão possoainda que o grito sufoque na gargantaainda que o ódio estale e crepite e ardasob as montanhas cinzentase montanhas cinzentasNão posso adiar este braçoque é uma arma de dois gumes amor e ódioNão posso adiarainda que a noite pese séculos sobre as costase a aurora indecisa demorenão posso adiar para outro século a minha vidanem o meu amornem o meu grito de libertaçãoNão posso adiar o coração.

Almeida GarrettPescador da barca belainterpretado porTeresa Silva Carvalho Pescador da barca bela,Onde vais pescar com ela.Que é tão bela,Oh pescador?Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela?Colhe a vela,Oh pescador!Deita o lanço com cautela,Que a sereia canta bela...Mas cautela,Oh pescador!Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e vela,Só de vê-la,Oh pescador.Pescador da barca bela,Inda é tempo, foge dela,Foge delaOh pescador!

José Eduardo AgualusaNa grande casa brancainterpretado porJoão Afonso Na grande casa branca onde eu viviE fui feliz para sempreTudo persiste idêntico e perpétuoÉ a mesma ainda a luz crepuscularDos quartos o quieto momentoE nas largas varandas abertas sobre o marÉ o mesmo ainda o perfume do ventoEm algum lado a casa há-de estarEu, é que já não estouEu é que sou as ruínas delaA casa está vazia, ninguém lá moraSalvo aranhas e capinsVê lá bem, a casa perdeu-se de nósE todaviaNunca ela foi tão nossa como agora

Mia CoutoSilvestre e o idiomainterpretado porJoão Afonso Silvestre quer saberporque razão eu estrago o portuguêsescrevendo palavras que nem há.Não é a pessoa que escolhe a palavra.É o inverso.Isso eu podia ter respondido.Mas não.O tudo que disse foi:é um crime passional, Silvestre.É que eu amo tanto a Vidaque ela não temcabimento em nenhum idioma.Silvestre sorriu.Afinal, também ele já cometerao idêntico crime:todas as mulheres que amaraele as rebatizara, vezes sem fim.Amor se parece com a Vida:ambos nascem na sede da palavra,ambos morrem na palavra bebida.

Luís de CamõesEndechas a Bárbara escravainterpretado porJosé Afonso Aquela cativa Que me tem cativo, Porque nela vivo Já não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves molhos, Que pera meus olhos Fosse mais fermosa. Nem no campo flores, Nem no céu estrelas Me parecem belas Como os meus amores. Rosto singular, Olhos sossegados, Pretos e cansados, Mas não de matar. U~a graça viva, Que neles lhe mora, Pera ser senhora De quem é cativa. Pretos os cabelos, Onde o povo vão Perde opinião Que os louros são belos. Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, Que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não. Presença serena Que a tormenta amansa; Nela, enfim, descansa Toda a minha pena. Esta é a cativa Que me tem cativo; E. pois nela vivo, É força que viva.

Eugénio de AndradeAdeusInterpretado porSimone de OliveiraJá gastámos as palavras pela rua, meu amor,e o que nos ficou não chegapara afastar o frio de quatro paredes.Gastámos tudo menos o silêncio.Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,gastámos as mãos à força de as apertarmos,gastámos o relógio e as pedras das esquinasem esperas inúteis.Meto as mãos nas algibeiras e não encontronada.Antigamente tínhamos tanto para dar umao outro;era como se todas as coisas fossem minhas:quanto mais te dava mais tinha para te dar.Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixesverdes.E eu acreditava.Acreditava,porque ao teu ladotodas as coisas eram possíveis.Mas isso era no tempo dos segredos,no tempo em que o teu corpo era umaquário,no tempo em que os meus olhoseram realmente peixes verdes.Hoje são apenas os meus olhos.É pouco, mas é verdade,uns olhos como todos os outros.Já gastámos as palavras.Quando agora digo: meu amor,já não se passa absolutamente nada.E, no entanto, antes das palavras gastas,tenho a certezade que todas as coisas estremeciamsó de murmurar o teu nomeno silêncio do meu coração.Não temos já nada para dar.Dentro de tiNão há nada que me peça água.O passado é inútil como um trapo.E já te disse: as palavras estão gastas.Adeus.

António VariaçõesEstou alémInterpretado porAntónio VariaçõesNão consigo dominarEste estado de ansiedadeA pressa de chegarP'ra não chegar tardeNão sei do que é que eu fujoSerá desta solidãoMas porque é que eu recusoQuem quer dar-me a mãoVou continuar a procurarA quem eu me quero darPorque até aqui eu sóQuero quem quem eu nunca viPorque eu só quero quemQuem não conheciPorque eu só quero quemQuem eu nunca viPorque eu só quero quemQuem não conheciPorque eu só quero quemQuem eu nunca viEsta insatisfaçãoNão consigo compreenderSempre esta sensaçãoQue estou a perderTenho pressa de sairQuero sentir ao chegarVontade de partirP'ra outro lugarVou continuar a procurarO meu mundoO meu lugarPorque até aqui eu sóEstou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde não estouEsta insatisfaçãoNão consigo compreenderSempre esta sensaçãoQue estou a perderTenho pressa de sairQuero sentir ao chegarVontade de partirP'ra outro lugarVou continuar a procurarA minha formaO meu lugarPorque até aqui eu sóEstou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu nao vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde não estouEstou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vou

Fausto Bordalo DiasO barco vai de saídaCantado porFausto (Bordalo Dias)O barco vai de saídaAdeus ó cais de alfamaSe agora vou de partidaLevo-te comigo ó cana verdeLembra-te de mim ó meu amorLembra-te de mim nesta aventuraP'ra lá da loucuraP'ra lá do EquadorAh! mas que ingrata ventura bem me posso queixarDa pátria a pouca farturaCheia de mágoas ai quebra marCom tantos perigos ai minha vidaCom tantos medos e sobressaltosQue eu já vou aos saltosQue eu vou de fugidaSem contar essa história escondidaPor servir de criado a essa senhoraServiu-se ela também tão sedutoraFoi pecadoFoi pecadoE foi pecado sim senhorQue vida boa era a de LisboaGingão de roda batidaCorsário sem cruzadoAo som do baile mandadoEm terras de pimenta e maravilhaCom sonhos de prata e fantasiaCom sonhos da cor do arco-írisDesvairas se os viresDesvairas magiaJá tenho a vela enfunadaMarrano sem vergonhaJudeu sem coisa sem fronhaVou de viagem ai que largadaSó vejo cores ai que alegriaSó vejo piratas e tesourosSão pratas, são ourosSão noites, são diasVou no espantoso trono das águasVou no tremendo assopro dos ventosVou por cima dos meus pensamentosArrepiaArrepiaE arrepia sim senhorQue vida boa era a de LisboaO mar das águas ardendoO delírio dos céusA fúria do barlaventoArreia a vela e vai marujo ao lemeVira o barco e cai marujo ao marVira o barco na curva da morteOlha a minha sorteOlha o meu azarE depois do barco viradoGrandes urros e gritosNa salvação dos aflitosEsfola, mata, agarraAi quem me ajudaReza, implora, escapaAi que pagodeReza tremem heróis e eunucosSão mouros, são turcosSão mouros acodeAquilo é uma tempestade medonhaAquilo vai p'ra lá do que é eternoAquilo era o retrato do infernoVai ao fundoVai ao fundoE vai ao fundo sim senhorQue vida boa era a de LisboaQue vida boa era a de Lisboa

Francisco de Sá de MirandaComigo me desavimInterpretado porD'AlmaComigo me desavim,Sou posto em todo perigo;Não posso viver comigoNem posso fugir de mim.Com dor da gente fugia,Antes que esta assi crecesse:Agora já fugiriaDe mim, se de mim pudesse.Que meo espero ou que fimDo vão trabalho que sigo,Pois que trago a mim comigoTamanho imigo de mim?

José Luís Peixotonão te pergunto onde chegas?Interpretado porRui Mouranão te pergunto de onde chegas?,porque sei para onde vais.hoje é a hora exacta em que até o ventoaté os pássaros desistem.e a noite a teus pés é um instantee um destino.não te pergunto onde está o teu rosto,tantas vezes ocluso e pisado sob os ramos,onde está o teu rosto?nem te peço que incendeies o teu nomenuma nuvem nocturna,nem te procuro.és tu que me encontras.ficas no rio que passa,nada de um tempo que não existe,nem correntes, nem pedra, nem musgo.nem silêncio.

José SaramagoAlegriaInterpretado porTeresa SalgueiroJá ouço gritos ao longeJá diz a voz do amorA alegria do corpoO esquecimento da dorJá os ventos recolheramJá o verão se nos ofereceQuantos frutos quantas fontesMais o sol que nos aqueceJá colho jasmins e nardosJá tenho colares de rosasE danço no meio da estradaAs danças prodigiosasJá os sorrisos se dãoJá se dão as voltas todasÓ certeza das certezasÓ alegria das bodas

Almada NegreirosRondel do AlentejoInterpretado porRicardo RibeiroEm minaretematebateleveverde neveminuetede luar.Meia-noitedo Segredono penedoduma noitede luar.Olhos carosde Morgadaenfeitavacom preparosde luar.Rompem fogopandeiretasmorenitas,bailam tetase bonitas,bailam chitase jaquetas,são de fitasdesafogode luar.Voa o xaileandorinhapelo baile,e a vidadoentinhae a ermidaao luar.Laçaroteescarlatede cocotealegriade Mariala-ri-rateem foliade luar.Giram pésgiram passosgirassóisos bonés,os braçosestes doisiram laçoso luar.coleteesta virgemendoidececomo o Sdo fogueteem vertigemde luar.Em minaretematebateleveverde neveminuetede luar.

Vinicius de MoraesEu sei que vou te amarInterpretado porAna CarolinaEu sei que vou te amarPor toda a minha vida eu vou te amarEm cada despedida eu vou te amarDesesperadamenteEu sei que vou te amarE cada verso meu seráPra te dizer que eu sei que vou te amarPor toda minha vidaEu sei que vou chorarA cada ausência tua eu vou chorarMas cada volta tua há de apagarO que esta ausência tua me causouEu sei que vou sofrerA eterna desventura de viverA espera de viver ao lado teuPor toda a minha vida

Mário Lúcio SousaIlha de SantiagoInterpretado porMayra AndradeIlha de SantiagoTem corpinho de algodónSaia de chita cu cordónUm par de brinco roda piónNa ilha de SantiagoTem nho Mano Mendi, tem Kaká, Nha Nácia Gómicu Zezé Nhu Raúl lá di fundo Ruber da BarcaNa Ilha de SantiagoTem Caetaninho, tem Codé, Nhu Ariquecu Ano Nobo Nha Bibinha lá di fundo Curral de BaxoNa Ilha de SantiagoTem Séma Lópi, tem Catchás, Djirga, Bilocas, Ney,Ntóni Dente d’Oro lá di fundo San Dimingo

12Viriato da CruzNamoroInterpretado porToty Sa'Med (1) e Sérgio Godinho (2)Mandei-lhe uma carta em papel perfumadoe com a letra bonita eu disse ela tinhaum sorrir luminoso tão quente e gaiatocomo o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridasespalhando diamantes na fímbria do mare dando calor ao sumo das mangas.sua pele macia - era sumaúma...Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosastão rijo e tão doce - como o maboque...Seu seios laranjas - laranjas do Logeseus dentes... - marfim...Mandei-lhe uma cartae ela disse que não.Mandei-lhe um cartãoque o Maninjo tipografou:"Por ti sofre o meu coração"Num canto - SIM, noutro canto - NÃOE ela o canto do NÃO dobrou.Mandei-lhe um recado pela Zefa do Setepedindo rogando de joelhos no chãopela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,me desse a ventura do seu namoro...E ela disse que não.Levei à avó Chica, quimbanda de famaa areia da marca que o seu pé deixoupara que fizesse um feitiço forte e seguroque nela nascesse um amor como o meu...E o feitiço falhou.Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,paguei-lhe doces na calçada da Missão,ficamos num banco do largo da Estátua,afaguei-lhe as mãos...falei-lhe de amor... e ela disse que não.Andei barbado, sujo, e descalço,como um mona-ngamba.Procuraram por mim" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"E perdido me deram no morro da Samba.E para me distrairlevaram-me ao baile do sô Januáriomas ela lá estava num canto a rircontando o meu caso às moças mais lindas do Bairro OperárioTocaram uma rumba dancei com elae num passo maluco voamos na salaqual uma estrela riscando o céu!E a malta gritou: "Aí Benjamim!"Olhei-a nos olhos - sorriu para mimpedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

José Luís TinocoNo teu poemaInterpretado porCarlos do CarmoNo teu poemaExiste um verso em branco e sem medidaUm corpo que respira, um céu abertoJanela debruçada para a vidaNo teu poema existe a dor calada lá no fundoO passo da coragem em casa escuraE, aberta, uma varanda para o mundoExiste a noiteO riso e a voz refeita à luz do diaA festa da Senhora da AgoniaE o cansaçoDo corpo que adormece em cama friaExiste um rioA sina de quem nasce fraco ou forteO risco, a raiva e a luta de quem caiOu que resisteQue vence ou adormece antes da morteNo teu poemaExiste o grito e o eco da metralhaA dor que sei de cor mas não recitoE os sonos inquietos de quem falhaNo teu poemaExiste um canto, chão alentejanoA rua e o pregão de uma varinaE um barco assoprado a todo o panoExiste um rioO canto em vozes juntas, vozes certasCanção de uma só letraE um só destino a embarcarNo cais da nova nau das descobertasExiste um rioA sina de quem nasce fraco ou forteO risco, a raiva e a luta de quem caiOu que resisteQue vence ou adormece antes da morteNo teu poemaExiste a esperança acesa atrás do muroExiste tudo o mais que ainda escapaE um verso em branco à espera de futuro

Lídia JorgeFado do retornointerpretado porMísiaAmor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaVoltaste, já voltasteJá entras como sempreAbrandas os teus passosE páras no tapeteEntão que uma luz ardaE assim o fogo aqueçaOs dedos bem unidosMovidos pela pressaAmor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaVoltaste, já volteiTambém cheia de pressaDe dar-te, na paredeO beijo que me peçasEntão que a sombra agiteE assim a imagem façaOs rostos de nós doisTocados pela graça.Amor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaAmor, o que seráMais certo que o futuroSe nele é para habitarA escolha do mais puroJá fuma o nosso fumoJá sobra a nossa mantaJá veio o nosso sonoFechar-nos a gargantaEntão que os cílios olhemE assim a casa sejaA árvore do OutonoCoberta de cereja.

Carlos OliveiraCarta a Ângelainterpretado porCarlos do CarmoPara ti, meu amor, é cada sonhode todas as palavras que escrever,cada imagem de luz e de futuro,cada dia dos dias que viver.Os abismos das coisas, quem os nega,se em nós abertos inda em nós persistem?Quantas vezes os versos que te douna água dos teus olhos é que existem!Quantas vezes chorando te alcanceie em lágrimas de sombra nos perdemos!As mesmas que contigo regresseiao ritmo da vida que escolhemos!Mais humana da terra dos caminhose mais certa, dos erros cometidos,foste de novo, e sempre, a mão da esperançanos meus versos errantes e perdidos.Transpondo os versos vieste à minha vidae um rio abriu-se onde era areia e dor.Porque chegaste à hora prometidaaqui te deixo tudo, meu amor!

Nuno JúdiceLisboa, OxaláInterpretado porCarlos do Carmo e CarminhoTal qual esta Lisboa, roupa posta à janelaTal qual esta Lisboa, roxa jacarandáSei de uma outra Lisboa, de avental e chinelaAi Lisboa fadista, de Alfama e oxaláSei de uma outra Lisboa, de avental e chinelaAi Lisboa fadista, de Alfama e oxaláLisboa lisboeta, da noite mais escuraDe ruas feitas sombra, de noites e vielasPisa o chão, pisa a pedra, pisa a vida que é duraLisboa tão sozinha, de becos e ruelasPisa o chão, pisa a pedra, pisa a vida que é duraLisboa tão sozinha, de becos e ruelasMas o rosto que espreita, por detrás da cortinaÉ o rosto d'outrora feito amor feito agoraRiso de maré viva numa boca ladinaRiso de maré cheia num beijo que demoraRiso de maré viva numa boca ladinaRiso de maré cheia num beijo que demoraE neste fado deixo esquecido aqui ficarLisboa sem destino, que o fado fez cantarCidade marinheira sem ter que navegarCaravela da noite que um dia vai chegarCidade marinheira sem ter que navegarCaravela da noite que um dia vai chegarCidade marinheira sem ter que navegarCaravela da noite que um dia vai chegar

António Castro AlvesO navio negreiroInterpretado porCaetano Veloso e Maria Bethânia'Stamos em pleno marEra um sonho dantesco... o tombadilho,Que das luzernas avermelha o brilho,Em sangue a se banhar.Tinir de ferros... estalar do açoite...Legiões de homens negros como a noite,Horrendos a dançar...Negras mulheres, suspendendo às tetasMagras crianças, cujas bocas pretasRega o sangue das mães:Outras, moças... mas nuas, espantadas,No turbilhão de espectros arrastadas,Em ânsia e mágoa vãs.E ri-se a orquestra, irônica, estridente...E da ronda fantástica a serpenteFaz doudas espirais...Se o velho arqueja... se no chão resvala,Ouvem-se gritos... o chicote estala.E voam mais e mais...Presa dos elos de uma só cadeia,A multidão faminta cambaleiaE chora e dança ali!Um de raiva delira, outro enlouquece...Outro, que de martírios embrutece,Cantando, geme e ri!No entanto o capitão manda a manobraE após, fitando o céu que se desdobraTão puro sobre o mar,Diz do fumo entre os densos nevoeiros:"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!Fazei-os mais dançar!..."E ri-se a orquestra irônica, estridente...E da ronda fantástica a serpenteFaz doudas espirais!Qual num sonho dantesco as sombras voam...Gritos, ais, maldições, preces ressoam!E ri-se Satanaz!...Senhor Deus dos desgraçados!Dizei-me vós, Senhor Deus!Se é loucura... se é verdadeTanto horror perante os céus...Ó mar, por que não apagasCo'a esponja de tuas vagasDe teu manto este borrão?...Astros! noite! tempestades!Rolai das imensidades!Varrei os mares, tufão!...Quem são estes desgraçadosQue não encontram em vósMais que o rir calmo da turbaQue excita a fúria do algoz?Quem são?... Se a estrela se cala,Se a vaga à pressa resvalaComo um cúmplice fugaz,Perante a noite confusa...Dize-o tu, severa musa,Musa libérrima, audaz!São os filhos do desertoOnde a terra esposa a luz.Onde voa em campo abertoA tribo dos homens nus...São os guerreiros ousados,Que com os tigres mosqueadosCombatem na solidão...Homens simples, fortes, bravos...Hoje míseros escravosSem ar, sem luz, sem razão...São mulheres desgraçadasComo Agar o foi também,Que sedentas, alquebradas,De longe... bem longe vêm...Trazendo com tíbios passosFilhos e algemas nos braços,N'alma lágrimas e fel.Como Agar sofrendo tantoQue nem o leite do prantoTêm que dar para Ismael...Lá nas areias infindas,Das palmeiras no país,Nasceram crianças lindas,Viveram moças gentis...Passa um dia a caravanaQuando a virgem na cabanaCisma das noites nos véus......Adeus! ó choça do monte!......Adeus! palmeiras da fonte!......Adeus! amores... adeus!...Senhor Deus dos desgraçados!Dizei-me vós, Senhor Deus!Se eu deliro... ou se é verdadeTanto horror perante os céus...Ó mar, por que não apagasCo'a esponja de tuas vagasDe teu manto este borrão?Astros! noite! tempestades!Rolai das imensidades!Varrei os mares, tufão!...E existe um povo que a bandeira emprestaP'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...E deixa-a transformar-se nessa festaEm manto impuro de bacante fria!...Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,Que impudente na gávea tripudia?!...Silêncio!... Musa! chora, chora tantoQue o pavilhão se lave no seu pranto...Auriverde pendão de minha terra,Que a brisa do Brasil beija e balança,Estandarte que a luz do sol encerra,E as promessas divinas da esperança...Tu, que da liberdade após a guerra,Foste hasteado dos heróis na lança,Antes te houvessem roto na batalha,Que servires a um povo de mortalha!...Fatalidade atroz que a mente esmaga!Extingue nesta hora o brigue imundoO trilho que Colombo abriu na vaga,Como um íris no pélago profundo!......Mas é infâmia demais...Da etérea plagaLevantai-vos, heróis do Novo Mundo...Andrada! arranca este pendão dos ares!Colombo! fecha a porta de teus mares!

Luís de CamõesMudam-se os tempos, mudam-se as vontadesInterpretado porJosé Mário Branco Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,muda-se o ser, muda-se a confiança;todo o Mundo é composto de mudança,tomando sempre novas qualidades.(E se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)Continuamente vemos novidades,diferentes em tudo da esperança;do mal ficam as mágoas na lembrança,e do bem (se algum houve), as saudades.(Mas se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)O tempo cobre o chão de verde manto,que já coberto foi de neve fria,e, enfim, converte em choro o doce canto.(Mas se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)E, afora este mudar-se cada dia,outra mudança faz de mor espanto,que não se muda já como soía.(Mas se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)

Vasco Graça MouraAté ao fimInterpretado porKátia GuerreiroIntensamente, amor, intensamentePonho na minha voz esta saudadeQue é feita de futuro no presenteE na ilusão é feita de verdadeIntensamente, amor, intensamenteDesesperando, amor, desesperandoPor mesmo assim eu não te dizer tudoMesmo ao lembrar-me de onde, e como, e quandoTeu coração mudou, mas eu não mudoDesesperando, amor, desesperandoAté ao fim, amor, até ao fimDo mundo, tal e qual pedro e InêsAqui te espero, aqui me tens a mimNeste mísero estado em que me vêsAté ao fim, amor, até ao fim

Fernando PessoaHá uma música do povoInterpretado porMarizaHá uma música do povo,Nem sei dizer se é um fado —Que ouvindo-a há um chiste novoNo ser que tenho guardado...Ouvindo-a sou quem seriaSe desejar fosse ser...É uma simples melodiaDas que se aprendem a viver...E ouço-a embalado e sozinho...É essa mesma que eu quis...Perdi a fé e o caminho...Quem não fui é que é feliz.Mas é tão consoladoraA vaga e triste canção...Que a minha alma já não choraNem eu tenho coração...Se uma emoção estrangeira,Um erro de sonho ido...Canto de qualquer maneiraE acaba com um sentido!

Fernando PessoaVaga, no azul amplo soltaInterpretado porPatxi AndiónVaga, no azul amplo solta,Vai uma nuvem errando.O meu passado não volta.Não é o que estou chorando.O que choro é diferente.Entra mais na alma da alma.Mas como, no céu sem gente,A nuvem flutua calma,E isto lembra uma tristezaE a lembrança é que entristece,Dou à saudade a riquezaDe emoção que a hora tece.Mas, em verdade, o que choraNa minha amarga ansiedadeMais alto que a nuvem mora,Está para além da saudade.Não sei o que é nem consintoÀ alma que o saiba bemVisto da dor com que mintoDor que a minha alma tem.

Pedro TamenVerdes anosInterpretado porDulce PontesEra o amorque chegava e partia:estarmos os doisera um calorque arrefeciasem antes nem depois…Era um segredosem ninguém para ouvir:eram enganose era um medo,a morte a rirnos nossos verdes anos...Teus olhos não eram paz,não eram consolação.O amor que o tempo trazo tempo o leva na mão.Foi o tempo que secoua flor que ainda não era.Como o Outono chegouno lugar da Primavera!No nosso sangue corriaum vento de sermos sós.Nascia a noite e era dia,e o dia acabava em nós…O que em nós mal começavanão teve nome de vida:era um beijo que se davanuma boca já perdida.

12Eugénio de AndradeNão canto porque sonhoInterpretado porNoiserv (1) e Fausto e Zeca Afonso (2)Não canto porque sonho.Canto porque és real.Canto o teu olhar maduro,teu sorriso puro,a tua graça animal.Canto porque sou homem.Se não cantasse seriamesmo bicho sadioembriagado na alegriada tua vinha sem vinho.Canto porque o amor apetece.Porque o feno amadurecenos teus braços deslumbrados.Porque o meu corpo estremeceao vê-los nus e suados.

12Luís de CamõesVerdes são os camposInterpretado porÚxia (1) e José Afonso (2) Verdes são os campos,Da cor de limão:Assim são os olhosDo meu coração.Campo, que te estendesCom verdura bela;Ovelhas, que nelaVosso pasto tendes,De ervas vos mantendesQue traz o Verão,E eu das lembrançasDo meu coração.Isso que comeisNão são ervas, não:São graças dos olhosDo meu coração.De ervas vos mantendesQue traz o Verão,E eu das lembrançasDo meu coração.Verdes são os campos,Da cor de limão:Assim são os olhosDo meu coração.Campo, que te estendesCom verdura bela;Ovelhas, que nelaVosso pasto tendes,De ervas vos mantendesQue traz o Verão,E eu das lembrançasDo meu coração.Isso que comeisNão são ervas, não:São graças dos olhosDo meu coração.

Maria Teresa HortaSegredoInterpretado porCristina BrancoNão contes do meuvestidoque tiro pela cabeçanem que corro oscortinadospara uma sombra mais espessaDeixa que feche oanelem redor do teu pescoçocom as minhas longaspernase a sombra do meu poçoNão contes do meunovelonem da roca de fiarnem o que façocom elesa fim de te ouvir gritar

Manuel Rui MonteiroOs meninos de HuamboInterpretado porRuy MingasCom fios feitos de lágrimas passadasOs meninos de Huambo fazem alegriaConstroem sonhos com os mais velhos de mãos dadasE no céu descobrem estrelas de magiaCom os lábios de dizer nova poesiaSoletram as estrelas como letrasE vão juntando no céu como pedrinhasEstrelas letras para fazer novas palavrasOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadeCom os sorrisos mais lindos do planaltoFazem continhas engraçadas de somarSomam beijos com flores e com suorE subtraem manhã cedo por luarDividem a chuva miudinha pelo milhoMultiplicam o vento pelo marSoltam ao céu as estrelas já escritasConstelações que brilham sempre sem pararOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadePalavras sempre novas, sempre novasPalavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povoAssim contentes à voltinha da fogueiraJuntam palavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povo

Manuel CruzOuvi dizerInterpretado porOrnatos VioletaOuvi dizer que o nosso amor acaboupois eu não tive a noção do seu fimpelo que eu já tentei eu não vou vê-lo em mimse eu não tive a noção de ver nascer um homeme ao que eu vejotudo foi para tiuma estúpida canção que só eu ouvie eu fiquei com tanto para dare agoranão vais achar nada bemque eu pague a conta em raivae pudesse eu pagar de outra formaouvi dizer que o mundo acaba amanhãe eu tinha tantos planos para depoisfui eu quem virou as páginasna pressa de chegar até nóssem tirar das palavras seu cruel sentidosobre a razão estar cegaresta-me apenas uma razãoum dia vais ser tue um homem como tucomo eu não fuium dia vou-te ouvir dizere pudesse eu pagar de outra formasei que um dia vais dizere pudesse eu pagar de outra formaa cidade está desertae alguém escreveu o teu nome em toda a partenas casas, nos carros, nas pontes, nas ruasem todo o lado essa palavrarepetida ao expoente da loucuraora amarga, ora docepara nos lembrar que o amor é uma doençaquando nele julgamos ver a nossa cura

Maria do Rosário PedreiraFlagranteInterpretado porAntónio ZambujoBem te avisei, meu amor,Que não podia dar certoE era coisa de evitarComo eu, devias supor,Que, com gente ali tão perto,Alguém fosse repararMas não: fizeste beicinhoE como numa promessaFicaste nua para mimPedaço de mau caminhoOnde é que eu tinha a cabeçaQuando te disse que sim?Embora tenhas juradoDiscreta permanecerJá que não estávamos sósOuvindo na sala ao ladoTeus gemidos de prazerVieram saber de nósNem dei p'lo que aconteceuMas, mais veloz e mais esperta,Só te viram de raspãoVergonha passei-a eu:Diante da porta abertaEstava de calças na mão

António Lobo AntunesBolero do coronel sensível que fez amor em MonsantoInterpretado porNaifaEu que me comovoPor tudo e por nadaDeixei-te paradaNa berma da estradaUsei o teu corpoPaguei o teu preçoEsqueci o teu nomeLimpei-me com o lençoOlhei-te a cinturaDe pé no alcatrãoLevantei-te as saiasDeitei-te no bancoNum bosque de faiasDe mala na mãoNem sequer falasteNem sequer beijasteNem sequer gemeste,Mordeste, abraçasteQuinhentos escudosFoi o que dissesteTinhas quinze anosDezasseis, dezasseteCheiravas a matoÀ sopa dos pobresA infância sem quartoA suor, a chicleteSaíste do carroAlisando a blusaEspiei da janelaRosto de aguarelaCoxa em semifusaSoltei o travãoVoltei para casaDe chaves na mãoSobrancelha em asaDisse: fiz serãoAo filho e à mulherRepeti a frutaAcabei a ceiaLarguei o talherEstendi-me na camaDe ouvido à escutaE perna cruzadaQue de olhos em chamaSó tinha na ideiaTeu corpo paradoNa berma da estradaEu que me comovoPor tudo e por nada

Vinicius de MoraesA casaInterpretado porVinicius de MoraesEra uma casaMuito engraçadaNão tinha tetoNão tinha nadaNinguém podiaEntrar nela nãoPorque na casaNão tinha chãoNinguém podiaDormir na redePorque a casaNão tinha paredeNinguém podiaFazer pipiPorque penicoNão tinha aliMas era feitaCom muito esmeroNa Rua dos BobosNúmero Zero.

Cecília MeirelesMotivoInterpretado porFagnerEu canto porque o instante existee a minha vida está completa.Não sou alegre nem sou triste:sou poeta.Irmão das coisas fugidias,não sinto gozo nem tormento.Atravesso noites e diasno vento.Se desmorono ou se edifico,se permaneço ou me desfaço,- não sei, não sei. Não sei se fico> ou passo.Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo:- mais nada.

Miguel TorgaSúplicaInterpretado porVitor BlueAgora que o silêncio é um mar sem ondas,E que nele posso navegar sem rumo,Não respondasÀs urgentes perguntasQue te fiz.Deixa-me ser felizAssim,Já tão longe de ti, como de mim.Perde-se a vida, a desejá-la tanto.Só soubemos sofrer, enquantoO nosso amorDurou.Mas o tempo passou,Há calmaria...Não perturbes a paz que me foi dada.Ouvir de novo a tua voz, seriaMatar a sede com água salgada.

Matilde Rosa AraújoCantar para um pastorInterpretado porRaquel TavaresAcorda meu sangue presoAcorda meu sangue mudoSe te amo não te amoE meu cantar não diz tudo,Se te amo não te amoE meu cantar não diz tudo.Meu olhar da madrugadaPastor da noite compridaLuz no peito vigiadaLiberdade consentida,Luz no peito vigiadaLiberdade consentida.Acorda meu sangue presoRasga o ventre do meu diaSe te amo não te amoMeu pastor de alegria,Se te amo não te amoMeu pastor de alegria.Meu pastor de alegriaMeu olhar de madrugadaSe eu piso campos verdesÉ sempre noite na estrada,Se eu piso campos verdesÉ sempre noite na estrada.Se te amo não te amoMeu olhar da madrugadaTrago uma pomba de espantoNesta garganta velada,Trago uma pomba de espantoNesta garganta velada.

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Poemas 1

Poemas 2

Poemas 3

Nota explicativa

Cantando espalharei por toda a parte

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A Semana da Leitura deste ano de 2021 é diferente das realizadas nos anos anteriores. Como outros eventos nos últimos meses, a pandemia de COVID 19 obrigou a alterar as formas de trabalho e a intervenção das Bibliotecas. Os conteúdos em formato digital têm vindo a ganhar espaço, respondendo às necessidades da comunidade educativa, sobretudo nos momentos de ensino à distância.Pensamos que todos nós já passamos por extraordinárias experiências ao ouvir uma música: de descobrir um poema ou um autor através de uma música; de ouvirmos uma música e não reconhecermos nela as palavras de um poeta; de nos ligarmos às palavras de uma canção, independentemente do seu autor; ou ainda de percebermos a força das palavras tornadas canção.O que aqui apresentamos é uma seleção de poemas de autores de língua portuguesa e a respetiva interpretação musical. São palavras de poetas de épocas muito diferentes, da Idade Média à contemporaneidade, com registos muito diferenciados. São poetas portugueses mas também de Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique, mostrando a riqueza da nossa língua e a sua fantástica diversidade. São poetas consagrados como Camões e Pessoa, mas também muitos outros menos reconhecidos mas cujos textos merecem uma atenção especial.Os vídeos que acompanham os poemas são, de igual forma muitos distintos. Alguns são muito básicos e interessam apenas pelo som; outros permitem acompanhar a leitura dos poemas; mas há também aqueles que são filmes que acrescentam valor às palavras e à música.Cabe a cada um fazer a escolha: experimentem ler o poema e depois ouvir a música; e fazer o contrário; e acompanhar a música com a leitura. Escolham os que mais gostam, os que acham que a música valorizou e os que passariam despercebidos se não fossem cantados.A escolha e seleção dos poemas foi, obviamente, subjetiva e muitos mais caberiam aqui. Fica para uma próxima... se a tanto nos ajudar o engenho e arte!

Biblioteca da Escola Secundária de Amares

biblioesamares@gmail.com

1. Para os braços da minha mãe, de Pedro Abrunhosa, interpretado por Pedro Abrunhosa e Camané2. Quem me leva os meus fantasmas, de Pedro Abrunhosa, interpretado por Maria Bethânia3. Na grande casa branca, de José Eduardo Agualusa, interpretado por João Afonso4. Trova do vento que passa, de Manuel Alegre, interpretado por Adriano Correia de Oliveira5. O navio negreiro, de António Castro Alves, interpretado por Caetano Veloso e Maria Bethânia6. As sem razões do amor, de Carlos Drumond de Andrade, interpretado por Tunai e Milton Nascimento7. Não canto porque sonho, de Eugénio de Andrade, interpretado por Noiserv (1) e Fausto e Zeca Afonso (2)8. Adeus, de Eugénio de Andrade, Interpretado por Simone de Oliveira9. Cantata da Paz, de Sophia de Mello Breyner Andresen, interpretado por Francisco Fanhais10. Sei que estou só, de Sophia de Mello Breyner Andresen, por Tiago Bettencourt11. Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto, de António Lobo Antunes, interpretado por Naifa12. Disse-te adeus à partida, de António Lobo Antunes, interpretado por Kátia Guerreiro13. Cantar para um pastor, de Matilde Rosa Araújo, interpretado por Raquel Tavares14. Inquietação, de José Mário Branco, interpretado por Camané e Dead Combo15. A Banda, de Chico Buarque, cantado por Chico Buarque16. Fico assim sem você, de Adriana Calcanhotto, interpretado por Adriana Cacanhotto17. Verdes são os campos, de Luís de Camões, interpretado por Úxia (1) e José Afonso (2)18. Endechas a Bárbara escrava, de Luís de Camões, interpretado por José Afonso19. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões, interpretado por José Mário Branco20. Luta, de Capicua, interpretado por Capicua e Aline Frazão21. Queixa das almas jovens censuradas, de Natália Correia, interpretado por José Mário Branco22. Silvestre e o idioma, de Mia Couto, interpretado por João Afonso23. Quero ser tambor, de José Craveirinha, interpretado por Narf24. Ouvi dizer, de Manuel Cruz, interpretado por Ornatos Violeta25. Namoro, de Viriato da Cruz, interpretado por Toty Sa'Med (1) e Sérgio Godinho (2)26. O barco vai de saída, de Fausto Bordalo Dias, interpretado por Fausto27. Ai flores, ai flores do verde pinho, de Dom Dinis, interpretado por Helena de Alfonso28. Pescador da barca bela, de Almeida Garrett, interpretado por Teresa Silva Carvalho

Poemas 1

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Poemas 2

Poemas 3

Pedro AbrunhosaQuem me leva os meus fantasmasCantado porMaria BethâniaAquele era o tempoEm que as mãos se fechavamE nas noites brilhantes as palavras voavamEu via que o céu me nascia dos dedosE a Ursa Maior eram ferros acesosMarinheiros perdidos em portos distantesEm bares escondidosEm sonhos gigantesE a cidade vaziaDa cor do asfaltoE alguém me pedia que cantasse mais altoQuem me leva os meus fantasmasQuem me salva desta espadaQuem me diz onde é a estrada?Aquele era o tempoEm que as sombras se abriamEm que homens negavamO que outros erguiamE eu bebia da vida em goles pequenosTropeçava no riso, abraçava venenosDe costas voltadas não se vê o futuroNem o rumo da balaNem a falha no muroE alguém me gritavaCom voz de profetaQue o caminho se fazEntre o alvo e a setaQuem leva os meus fantasmasQuem me salva desta espadaQuem me diz onde é a estrada?De que serve ter o mapaSe o fim está traçadoDe que serve a terra à vistaSe o barco está paradoDe que serve ter a chaveSe a porta está abertaDe que servem as palavrasSe a casa está deserta?Quem me leva os meus fantasmasQuem me salva desta espadaQuem me diz onde é a estrada?

Pedro AbrunhosaPara os braços da minha mãeCantado porPedro Abrunhosa e CamanéCheguei ao fundo da estrada,Duas léguas de nada,Não sei que força me mantém.É tão cinzenta a AlemanhaE a saudade tamanha,E o verão nunca mais vem.Quero ir para casaEmbarcar num golpe de asa,Pisar a terra em brasa,Que a noite já aí vem.Quero voltarPara os braços da minha mãe,Quero voltarPara os braços da minha mãe.Trouxe um pouco de terra,Cheira a pinheiro e a serra,Voam pombasNo beiral.Fiz vinte anos no chão,Na noite de Amsterdão,Comprei amorPelo jornal.Quero ir para casaEmbarcar num golpe de asa,Pisar a terra em brasa,Que a noite já aí vem.Quero voltarPara os braços da minha mãe,Quero voltarPara os braços da minha mãe.Vim em passo de bala,Um diploma na mala,Deixei o meu amor p’ra trás.Faz tanto frio em Paris,Sou já memória e raiz,Ninguém sai donde tem Paz.Quero ir para casaEmbarcar num golpe de asa,Pisar a terra em brasa,Que a noite já aí vem.Quero voltarPara os braços da minha mãe,Quero voltarPara os braços da minha mãe.

José Eduardo AgualusaNa grande casa brancainterpretado porJoão Afonso Na grande casa branca onde eu viviE fui feliz para sempreTudo persiste idêntico e perpétuoÉ a mesma ainda a luz crepuscularDos quartos o quieto momentoE nas largas varandas abertas sobre o marÉ o mesmo ainda o perfume do ventoEm algum lado a casa há-de estarEu, é que já não estouEu é que sou as ruínas delaA casa está vazia, ninguém lá moraSalvo aranhas e capinsVê lá bem, a casa perdeu-se de nósE todaviaNunca ela foi tão nossa como agora

Manuel AlegreTrova do vento que passaInterpretado porAdriano Correia de Oliveira Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país. Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio - é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te crucificada nos braços negros da fome. E o vento não me diz nada só o silêncio persiste. Vi minha pátria parada à beira de um rio triste. Ninguém diz nada de novo se notícias vou pedindo nas mãos vazias do povo vi minha pátria florindo. E a noite cresce por dentro dos homens do meu país. Peço notícias ao vento e o vento nada me diz. Quatro folhas tem o trevo liberdade quatro sílabas. Não sabem ler é verdade aqueles pra quem eu escrevo. Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça há sempre alguém que semeia canções no vento que passa. Mesmo na noite mais triste em tempo de sevidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.

António Castro AlvesO navio negreiroInterpretado porCaetano Veloso e Maria Bethânia'Stamos em pleno marEra um sonho dantesco... o tombadilho,Que das luzernas avermelha o brilho,Em sangue a se banhar.Tinir de ferros... estalar do açoite...Legiões de homens negros como a noite,Horrendos a dançar...Negras mulheres, suspendendo às tetasMagras crianças, cujas bocas pretasRega o sangue das mães:Outras, moças... mas nuas, espantadas,No turbilhão de espectros arrastadas,Em ânsia e mágoa vãs.E ri-se a orquestra, irônica, estridente...E da ronda fantástica a serpenteFaz doudas espirais...Se o velho arqueja... se no chão resvala,Ouvem-se gritos... o chicote estala.E voam mais e mais...Presa dos elos de uma só cadeia,A multidão faminta cambaleiaE chora e dança ali!Um de raiva delira, outro enlouquece...Outro, que de martírios embrutece,Cantando, geme e ri!No entanto o capitão manda a manobraE após, fitando o céu que se desdobraTão puro sobre o mar,Diz do fumo entre os densos nevoeiros:"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!Fazei-os mais dançar!..."E ri-se a orquestra irônica, estridente...E da ronda fantástica a serpenteFaz doudas espirais!Qual num sonho dantesco as sombras voam...Gritos, ais, maldições, preces ressoam!E ri-se Satanaz!...Senhor Deus dos desgraçados!Dizei-me vós, Senhor Deus!Se é loucura... se é verdadeTanto horror perante os céus...Ó mar, por que não apagasCo'a esponja de tuas vagasDe teu manto este borrão?...Astros! noite! tempestades!Rolai das imensidades!Varrei os mares, tufão!...Quem são estes desgraçadosQue não encontram em vósMais que o rir calmo da turbaQue excita a fúria do algoz?Quem são?... Se a estrela se cala,Se a vaga à pressa resvalaComo um cúmplice fugaz,Perante a noite confusa...Dize-o tu, severa musa,Musa libérrima, audaz!São os filhos do desertoOnde a terra esposa a luz.Onde voa em campo abertoA tribo dos homens nus...São os guerreiros ousados,Que com os tigres mosqueadosCombatem na solidão...Homens simples, fortes, bravos...Hoje míseros escravosSem ar, sem luz, sem razão...São mulheres desgraçadasComo Agar o foi também,Que sedentas, alquebradas,De longe... bem longe vêm...Trazendo com tíbios passosFilhos e algemas nos braços,N'alma lágrimas e fel.Como Agar sofrendo tantoQue nem o leite do prantoTêm que dar para Ismael...Lá nas areias infindas,Das palmeiras no país,Nasceram crianças lindas,Viveram moças gentis...Passa um dia a caravanaQuando a virgem na cabanaCisma das noites nos véus......Adeus! ó choça do monte!......Adeus! palmeiras da fonte!......Adeus! amores... adeus!...Senhor Deus dos desgraçados!Dizei-me vós, Senhor Deus!Se eu deliro... ou se é verdadeTanto horror perante os céus...Ó mar, por que não apagasCo'a esponja de tuas vagasDe teu manto este borrão?Astros! noite! tempestades!Rolai das imensidades!Varrei os mares, tufão!...E existe um povo que a bandeira emprestaP'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...E deixa-a transformar-se nessa festaEm manto impuro de bacante fria!...Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,Que impudente na gávea tripudia?!...Silêncio!... Musa! chora, chora tantoQue o pavilhão se lave no seu pranto...Auriverde pendão de minha terra,Que a brisa do Brasil beija e balança,Estandarte que a luz do sol encerra,E as promessas divinas da esperança...Tu, que da liberdade após a guerra,Foste hasteado dos heróis na lança,Antes te houvessem roto na batalha,Que servires a um povo de mortalha!...Fatalidade atroz que a mente esmaga!Extingue nesta hora o brigue imundoO trilho que Colombo abriu na vaga,Como um íris no pélago profundo!......Mas é infâmia demais...Da etérea plagaLevantai-vos, heróis do Novo Mundo...Andrada! arranca este pendão dos ares!Colombo! fecha a porta de teus mares!

Sophia de Mello Breyner AndresenCantata da PazInterpretado porFrancisco FanhaisVemos, ouvimos e lemosNão podemos ignorarVemos, ouvimos e lemosNão podemos ignorarVemos, ouvimos e lemosRelatórios da fomeO caminho da injustiçaA linguagem do terrorA bomba de HiroshimaVergonha de nós todosReduziu a cinzasA carne das criançasDÁfrica e VietnameSobe a lamentaçãoDos povos destruídosDos povos destroçadosNada pode apagarO concerto dos gritosO nosso tempo éPecado organizado.

Sophia de Mello Breyner AndresenSei que estou sóCantado porTiago BettencourtSei que estou só e gelo entre as folhagensNenhuma gruta me pode protegerComo um laço deslaça-se o meu serE nos meus olhos morrem as paisagens.Desligo da minha alma a melodiaQue inventei no ar. Tombo das imagensComo um pássaro morto das folhagensTombando se desfaz na terra fria.

CapicuaLutaInterpretado porCapicua e Aline FrazãoHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosNem um som da sestaTu conheces as minhas fases todasComo a luaE desconheces que a vida mudaAté a tua lupaE que eu não sou a única que está diferenteE não há uma só critica ou vitima em julgamentoEis o reconhecimento vamos começar de novoReconhecermos os erros é conhecermos o outroFaz o que é suposto, recomeço é necessárioSeco as lagrimas do rosto em mais um aniversarioE confio que por muito que isto tudo seja um erroTem de haver a recompensa para se ser tao ingenuoE eu juro, finjo que pároDigo que saio mas não vouEu calo e quando faloEu nunca abro o jogo todoEu fico achando que arcoMas depois mato o que restouNão queimo entãoNão chega porque amor para mim é fogo!Insisto, eu não desisto ainda resisto a mais um testeSe não é isto, não existe porque amor tem de ser esteE eu deitava fogo à casa com palavras se pudesseEu punha o pe na estrada e não voltava mais a ver-teEu rezava se soubesse ou se desse algum resultadoE se houvesse alguma prece que mudasse o meu passadoPra não te ter tatuado a ferro quente no coloCom a frieza de que quem mata com uma lupa ao solPra não te ter sempre ao lado, em fantasma quando não estásSentindo que olhar para a frente é voltar andar para trásTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosNem um som da sestaTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloTatuado a ferro quente queimo a mata lupa ao solO passado à minha frente e o fantasma no meu coloHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosHoje a minha dor é estaNo pasmo dos descaminhosQuerer deitar fogo à florestaSem queimar os ninhosNem um som da sestaJuro, finjo que pároDigo que saio mas não vouEu calo e quando faloEu nunca abro o jogo todoEu fico achando que arcoMas depois mato o que restouNão queimo entãoNão chega porque amor para mim é fogo

José Mário BrancoInquietaçãoInterpretado porCamané e Dead ComboA contas com o bem que tu me fazesA contas com o mal por que passeiCom tantas guerras que traveiJá não sei fazer as pazesSão flores aos milhões entre ruínasMeu peito feito campo de batalhaCada alvorada que me ensinasOiro em pó que o vento espalhaCá dentro inquietação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaHá sempre qualquer coisa que está pra acontecerQualquer coisa que eu devia perceberPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaEnsinas-me fazer tantas perguntasNa volta das respostas que eu traziaQuantas promessas eu fariaSe as cumprisse todas juntasNão largues esta mão no torvelinhoPois falta sempre pouco para chegarEu não meti o barco ao marPra ficar pelo caminhoCá dentro inqueitação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaHá sempre qualquer coisa que está pra acontecerQualquer coisa que eu devia perceberPorquê, não seiPorquê, não seiPorquê, não sei aindaCá dentro inquietação, inquietaçãoÉ só inquietação, inquietaçãoPorquê, não seiMas seiÉ que não sei aindaHá sempre qualquer coisa que eu tenho que fazerQualquer coisa que eu devia resolverPorquê, não seiMas seiQue essa coisa é que é linda

Eugénio de AndradeAdeusInterpretado porSimone de OliveiraJá gastámos as palavras pela rua, meu amor,e o que nos ficou não chegapara afastar o frio de quatro paredes.Gastámos tudo menos o silêncio.Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,gastámos as mãos à força de as apertarmos,gastámos o relógio e as pedras das esquinasem esperas inúteis.Meto as mãos nas algibeiras e não encontronada.Antigamente tínhamos tanto para dar umao outro;era como se todas as coisas fossem minhas:quanto mais te dava mais tinha para te dar.Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixesverdes.E eu acreditava.Acreditava,porque ao teu ladotodas as coisas eram possíveis.Mas isso era no tempo dos segredos,no tempo em que o teu corpo era umaquário,no tempo em que os meus olhoseram realmente peixes verdes.Hoje são apenas os meus olhos.É pouco, mas é verdade,uns olhos como todos os outros.Já gastámos as palavras.Quando agora digo: meu amor,já não se passa absolutamente nada.E, no entanto, antes das palavras gastas,tenho a certezade que todas as coisas estremeciamsó de murmurar o teu nomeno silêncio do meu coração.Não temos já nada para dar.Dentro de tiNão há nada que me peça água.O passado é inútil como um trapo.E já te disse: as palavras estão gastas.Adeus.

Carlos Drumond de AndradeAs sem razões do amorinterpretado porTunai e Milton Nascimento Eu te amo porque te amo.Não precisas ser amante,e nem sempre sabes sê-lo.Eu te amo porque te amo.Amor é estado de graçae com amor não se paga.Amor é dado de graça,é semeado no vento,na cachoeira, no eclipse.Amor foge a dicionáriose a regulamentos vários.Eu te amo porque não amobastante ou demais a mim.Porque amor não se troca,não se conjuga nem se ama.Porque amor é amor a nada,feliz e forte em si mesmo.Amor é primo da morte,e da morte vencedor,por mais que o matem (e matam)a cada instante de amor.

Chico BuarqueA BandaCantado porChico Buarque O homem sério que contava dinheiro parouO faroleiro que contava vantagem parouA namorada que contava as estrelasParou para ver, ouvir e dar passagemA moça triste que vivia calada sorriuA rosa triste que vivia fechada se abriuE a meninada toda se assanhouPra ver a banda passarCantando coisas de amorEstava à toa na vidaO meu amor me chamouPra ver a banda passarCantando coisas de amorA minha gente sofridaDespediu-se da dorPra ver a banda passarCantando coisas de amorO velho fraco se esqueceu do cansaço e pensouQue ainda era moço pra sair no terraço e dançouA moça feia debruçou na janelaPensando que a banda tocava pra elaA marcha alegre se espalhou na avenida e insistiuA lua cheia que vivia escondida surgiuMinha cidade toda se enfeitouPra ver a banda passar cantando coisas de amorMas para meu desencantoO que era doce acabouTudo tomou seu lugarDepois que a banda passouE cada qual no seu cantoEm cada canto uma dorDepois da banda passarCantando coisas de amorDepois da banda passarCantando coisas de amor

Luís de CamõesEndechas a Bárbara escravainterpretado porJosé Afonso Aquela cativa Que me tem cativo, Porque nela vivo Já não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves molhos, Que pera meus olhos Fosse mais fermosa. Nem no campo flores, Nem no céu estrelas Me parecem belas Como os meus amores. Rosto singular, Olhos sossegados, Pretos e cansados, Mas não de matar. U~a graça viva, Que neles lhe mora, Pera ser senhora De quem é cativa. Pretos os cabelos, Onde o povo vão Perde opinião Que os louros são belos. Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, Que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não. Presença serena Que a tormenta amansa; Nela, enfim, descansa Toda a minha pena. Esta é a cativa Que me tem cativo; E. pois nela vivo, É força que viva.

Adriana CalcanhottoFico assim sem vocêInterpretado porAdriana CacanhottoAvião sem asaFogueira sem brasaSou eu assim, sem vocêFutebol sem bolaPiu-Piu sem FrajolaSou eu assim, sem vocêPor que é que tem que ser assim?Se o meu desejo não tem fimEu te quero a todo instanteNem mil auto-falantesVão poder falar por mimAmor sem beijinhoBochecha sem ClaudinhoSou eu assim sem vocêCirco sem palhaçonamoro sem amassoSou eu assim sem vocêTô louca pra te ver chegarTô louca pra te ter nas mãosDeitar no teu abraçoRetomar o pedaçoQue falta no meu coraçãoEu não existo longe de vocêE a solidão é o meu pior castigoEu conto as horas pra poder te verMas o relógio tá de mal comigoPor quê? Por quê?Neném sem chupetaRomeu sem JulietaSou eu assim sem vocêCarro sem estradaQueijo sem goiabadaSou eu assim sem vocêPor que é que tem que ser assimSe o meu desejo não tem fimEu te quero a todo instanteNem mil alto-falantesvão poder falar por mimEu não existo longe de vocêE a solidão é o meu pior castigoEu conto as horas pra poder te verMas o relógio tá de mal comigoEu não existo longe de vocêE a solidão é o meu pior castigoEu conto as horas pra poder te verMas o relógio tá de mal comigo

Manuel CruzOuvi dizerInterpretado porOrnatos VioletaOuvi dizer que o nosso amor acaboupois eu não tive a noção do seu fimpelo que eu já tentei eu não vou vê-lo em mimse eu não tive a noção de ver nascer um homeme ao que eu vejotudo foi para tiuma estúpida canção que só eu ouvie eu fiquei com tanto para dare agoranão vais achar nada bemque eu pague a conta em raivae pudesse eu pagar de outra formaouvi dizer que o mundo acaba amanhãe eu tinha tantos planos para depoisfui eu quem virou as páginasna pressa de chegar até nóssem tirar das palavras seu cruel sentidosobre a razão estar cegaresta-me apenas uma razãoum dia vais ser tue um homem como tucomo eu não fuium dia vou-te ouvir dizere pudesse eu pagar de outra formasei que um dia vais dizere pudesse eu pagar de outra formaa cidade está desertae alguém escreveu o teu nome em toda a partenas casas, nos carros, nas pontes, nas ruasem todo o lado essa palavrarepetida ao expoente da loucuraora amarga, ora docepara nos lembrar que o amor é uma doençaquando nele julgamos ver a nossa cura

José CraveirinhaQuero ser tamborInterpretado porNarf (Francisco Xavier Pérez Vásquez)Tambor está velho de gritarOh velho Deus dos homensdeixa-me ser tamborcorpo e alma só tamborsó tambor gritando na noite quente dos trópicos.Nem flor nascida no mato do desesperoNem rio correndo para o mar do desesperoNem zagaia temperada no lume vivo do desesperoNem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.Nem nada!Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terraSó tambor de pele curtida ao sol da minha terraSó tambor cavado nos troncos duros da minha terra.EuSó tambor rebentando o silêncio amargo da MafalalaSó tambor velho de sentar no batuque da minha terraSó tambor perdido na escuridão da noite perdida.Oh velho Deus dos homenseu quero ser tambore nem rioe nem flore nem zagaia por enquantoe nem mesmo poesia.Só tambor ecoando como a canção da força e da vidaSó tambor noite e diadia e noite só tamboraté à consumação da grande festa do batuque!Oh velho Deus dos homensdeixa-me ser tamborsó tambor!

Mia CoutoSilvestre e o idiomainterpretado porJoão Afonso Silvestre quer saberporque razão eu estrago o portuguêsescrevendo palavras que nem há.Não é a pessoa que escolhe a palavra.É o inverso.Isso eu podia ter respondido.Mas não.O tudo que disse foi:é um crime passional, Silvestre.É que eu amo tanto a Vidaque ela não temcabimento em nenhum idioma.Silvestre sorriu.Afinal, também ele já cometerao idêntico crime:todas as mulheres que amaraele as rebatizara, vezes sem fim.Amor se parece com a Vida:ambos nascem na sede da palavra,ambos morrem na palavra bebida.

Natália CorreiaQueixa das almas jovens censuradasCantado porJosé Mário BrancoDão-nos um lírio e um canivetee uma alma para ir à escolamais um letreiro que prometeraízes, hastes e corolaDão-nos um mapa imaginárioque tem a forma de uma cidademais um relógio e um calendárioonde não vem a nossa idadeDão-nos a honra de manequimpara dar corda à nossa ausência.Dão-nos um prémio de ser assimsem pecado e sem inocênciaDão-nos um barco e um chapéupara tirarmos o retratoDão-nos bilhetes para o céulevado à cena num teatroPenteiam-nos os crâneos ermoscom as cabeleiras das avóspara jamais nos parecermosconnosco quando estamos sósDão-nos um bolo que é a históriada nossa historia sem enredoe não nos soa na memóriaoutra palavra que o medoTemos fantasmas tão educadosque adormecemos no seu ombrosomos vazios despovoadosde personagens de assombroDão-nos a capa do evangelhoe um pacote de tabacodão-nos um pente e um espelhopra pentearmos um macacoDão-nos um cravo preso à cabeçae uma cabeça presa à cinturapara que o corpo não pareçaa forma da alma que o procuraDão-nos um esquife feito de ferrocom embutidos de diamantepara organizar já o enterrodo nosso corpo mais adianteDão-nos um nome e um jornalum avião e um violinomas não nos dão o animalque espeta os cornos no destinoDão-nos marujos de papelãocom carimbo no passaportepor isso a nossa dimensãonão é a vida, nem é a morte

António Lobo AntunesDisse-te adeus à partidaCantado porKátia GuerreiroDisse-te adeus á partidaDigo-te adeus á chegadaSe quero tudo na vidaJá de ti, não quero nadaSe quero tudo na vidaJá de ti, não quero nadaDisse-te adeus e depoisFiquei no mesmo lugarNo leito de nós os doisSó tem raízes no meioNo leito de nós os doisSó tem raízes no meioDizer adeus é diferenteQuando te digo baixinhoNo meio de tanta genteÉ que me sinto sozinhoNo meio de tanta genteÉ que me sinto sozinhoComo a gaivota na vozDisse-te adeus e partiSe esta cama somos nósNão hei de morrer sem tiSe esta cama somos nósNão hei de morrer sem ti

Fausto Bordalo DiasO barco vai de saídaCantado porFausto (Bordalo Dias)O barco vai de saídaAdeus ó cais de alfamaSe agora vou de partidaLevo-te comigo ó cana verdeLembra-te de mim ó meu amorLembra-te de mim nesta aventuraP'ra lá da loucuraP'ra lá do EquadorAh! mas que ingrata ventura bem me posso queixarDa pátria a pouca farturaCheia de mágoas ai quebra marCom tantos perigos ai minha vidaCom tantos medos e sobressaltosQue eu já vou aos saltosQue eu vou de fugidaSem contar essa história escondidaPor servir de criado a essa senhoraServiu-se ela também tão sedutoraFoi pecadoFoi pecadoE foi pecado sim senhorQue vida boa era a de LisboaGingão de roda batidaCorsário sem cruzadoAo som do baile mandadoEm terras de pimenta e maravilhaCom sonhos de prata e fantasiaCom sonhos da cor do arco-írisDesvairas se os viresDesvairas magiaJá tenho a vela enfunadaMarrano sem vergonhaJudeu sem coisa sem fronhaVou de viagem ai que largadaSó vejo cores ai que alegriaSó vejo piratas e tesourosSão pratas, são ourosSão noites, são diasVou no espantoso trono das águasVou no tremendo assopro dos ventosVou por cima dos meus pensamentosArrepiaArrepiaE arrepia sim senhorQue vida boa era a de LisboaO mar das águas ardendoO delírio dos céusA fúria do barlaventoArreia a vela e vai marujo ao lemeVira o barco e cai marujo ao marVira o barco na curva da morteOlha a minha sorteOlha o meu azarE depois do barco viradoGrandes urros e gritosNa salvação dos aflitosEsfola, mata, agarraAi quem me ajudaReza, implora, escapaAi que pagodeReza tremem heróis e eunucosSão mouros, são turcosSão mouros acodeAquilo é uma tempestade medonhaAquilo vai p'ra lá do que é eternoAquilo era o retrato do infernoVai ao fundoVai ao fundoE vai ao fundo sim senhorQue vida boa era a de LisboaQue vida boa era a de Lisboa

Dom DinisAi flores, ai flores de verde pinhointerpretado porHelena de AlfonsoAi flores, ai flores do verde pinho,se sabedes novas do meu amigo?Ai Deus, e u é?Ai flores, ai flores do verde ramo,se sabedes novas do meu amado?Ai Deus, e u é?Se sabedes novas do meu amigo,aquel que mentiu do que pôs comigo?Ai Deus, e u é?Se sabedes novas do meu amado,aquel que mentiu do qui mi há jurado?Ai Deus, e u é?Vós me perguntardes polo voss'amigo,e eu bem vos digo que é sã'e vivo.Ai Deus, e u é?Vós me perguntardes polo voss'amado,e eu bem vos digo que é viv'e são.Ai Deus, e u é?E eu bem vos digo que é sã'e vivoe seera vosc'ant'o prazo saído.Ai Deus, e u é?E eu bem vos digo que é viv' e sãoe seera vosc'ant'o prazo passadoAi Deus, e u é?

Almeida GarrettPescador da barca belainterpretado porTeresa Silva Carvalho Pescador da barca bela,Onde vais pescar com ela.Que é tão bela,Oh pescador?Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela?Colhe a vela,Oh pescador!Deita o lanço com cautela,Que a sereia canta bela...Mas cautela,Oh pescador!Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e vela,Só de vê-la,Oh pescador.Pescador da barca bela,Inda é tempo, foge dela,Foge delaOh pescador!

Luís de CamõesMudam-se os tempos, mudam-se as vontadesInterpretado porJosé Mário Branco Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,muda-se o ser, muda-se a confiança;todo o Mundo é composto de mudança,tomando sempre novas qualidades.(E se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)Continuamente vemos novidades,diferentes em tudo da esperança;do mal ficam as mágoas na lembrança,e do bem (se algum houve), as saudades.(Mas se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)O tempo cobre o chão de verde manto,que já coberto foi de neve fria,e, enfim, converte em choro o doce canto.(Mas se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)E, afora este mudar-se cada dia,outra mudança faz de mor espanto,que não se muda já como soía.(Mas se todo o mundo é composto de mudançaTroquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança)

12Eugénio de AndradeNão canto porque sonhoInterpretado porNoiserv (1) e Fausto e Zeca Afonso (2)Não canto porque sonho.Canto porque és real.Canto o teu olhar maduro,teu sorriso puro,a tua graça animal.Canto porque sou homem.Se não cantasse seriamesmo bicho sadioembriagado na alegriada tua vinha sem vinho.Canto porque o amor apetece.Porque o feno amadurecenos teus braços deslumbrados.Porque o meu corpo estremeceao vê-los nus e suados.

António Lobo AntunesBolero do coronel sensível que fez amor em MonsantoInterpretado porNaifaEu que me comovoPor tudo e por nadaDeixei-te paradaNa berma da estradaUsei o teu corpoPaguei o teu preçoEsqueci o teu nomeLimpei-me com o lençoOlhei-te a cinturaDe pé no alcatrãoLevantei-te as saiasDeitei-te no bancoNum bosque de faiasDe mala na mãoNem sequer falasteNem sequer beijasteNem sequer gemeste,Mordeste, abraçasteQuinhentos escudosFoi o que dissesteTinhas quinze anosDezasseis, dezasseteCheiravas a matoÀ sopa dos pobresA infância sem quartoA suor, a chicleteSaíste do carroAlisando a blusaEspiei da janelaRosto de aguarelaCoxa em semifusaSoltei o travãoVoltei para casaDe chaves na mãoSobrancelha em asaDisse: fiz serãoAo filho e à mulherRepeti a frutaAcabei a ceiaLarguei o talherEstendi-me na camaDe ouvido à escutaE perna cruzadaQue de olhos em chamaSó tinha na ideiaTeu corpo paradoNa berma da estradaEu que me comovoPor tudo e por nada

Matilde Rosa AraújoCantar para um pastorInterpretado porRaquel TavaresAcorda meu sangue presoAcorda meu sangue mudoSe te amo não te amoE meu cantar não diz tudo,Se te amo não te amoE meu cantar não diz tudo.Meu olhar da madrugadaPastor da noite compridaLuz no peito vigiadaLiberdade consentida,Luz no peito vigiadaLiberdade consentida.Acorda meu sangue presoRasga o ventre do meu diaSe te amo não te amoMeu pastor de alegria,Se te amo não te amoMeu pastor de alegria.Meu pastor de alegriaMeu olhar de madrugadaSe eu piso campos verdesÉ sempre noite na estrada,Se eu piso campos verdesÉ sempre noite na estrada.Se te amo não te amoMeu olhar da madrugadaTrago uma pomba de espantoNesta garganta velada,Trago uma pomba de espantoNesta garganta velada.

12Luís de CamõesVerdes são os camposInterpretado porÚxia (1) e José Afonso (2) Verdes são os campos,Da cor de limão:Assim são os olhosDo meu coração.Campo, que te estendesCom verdura bela;Ovelhas, que nelaVosso pasto tendes,De ervas vos mantendesQue traz o Verão,E eu das lembrançasDo meu coração.Isso que comeisNão são ervas, não:São graças dos olhosDo meu coração.De ervas vos mantendesQue traz o Verão,E eu das lembrançasDo meu coração.Verdes são os campos,Da cor de limão:Assim são os olhosDo meu coração.Campo, que te estendesCom verdura bela;Ovelhas, que nelaVosso pasto tendes,De ervas vos mantendesQue traz o Verão,E eu das lembrançasDo meu coração.Isso que comeisNão são ervas, não:São graças dos olhosDo meu coração.

12Viriato da CruzNamoroInterpretado porToty Sa'Med (1) e Sérgio Godinho (2)Mandei-lhe uma carta em papel perfumadoe com a letra bonita eu disse ela tinhaum sorrir luminoso tão quente e gaiatocomo o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridasespalhando diamantes na fímbria do mare dando calor ao sumo das mangas.sua pele macia - era sumaúma...Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosastão rijo e tão doce - como o maboque...Seu seios laranjas - laranjas do Logeseus dentes... - marfim...Mandei-lhe uma cartae ela disse que não.Mandei-lhe um cartãoque o Maninjo tipografou:"Por ti sofre o meu coração"Num canto - SIM, noutro canto - NÃOE ela o canto do NÃO dobrou.Mandei-lhe um recado pela Zefa do Setepedindo rogando de joelhos no chãopela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,me desse a ventura do seu namoro...E ela disse que não.Levei à avó Chica, quimbanda de famaa areia da marca que o seu pé deixoupara que fizesse um feitiço forte e seguroque nela nascesse um amor como o meu...E o feitiço falhou.Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,paguei-lhe doces na calçada da Missão,ficamos num banco do largo da Estátua,afaguei-lhe as mãos...falei-lhe de amor... e ela disse que não.Andei barbado, sujo, e descalço,como um mona-ngamba.Procuraram por mim" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"E perdido me deram no morro da Samba.E para me distrairlevaram-me ao baile do sô Januáriomas ela lá estava num canto a rircontando o meu caso às moças mais lindas do Bairro OperárioTocaram uma rumba dancei com elae num passo maluco voamos na salaqual uma estrela riscando o céu!E a malta gritou: "Aí Benjamim!"Olhei-a nos olhos - sorriu para mimpedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.Falecimento:Nascimento:Profissão:Género Literário:Nome Completo:Autor:Viriato da CruzViriato Francisco Clemente da CruzPoetaPolítico e escritor25 de março de 1928, Porto Amboim, Angola13 de junho de 1973, Pequim, República Popular da China

Poemas 2

Poemas 1

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29. Lágrima de Preta, de António Gedeão, cantado por Adriano Correia de Oliveira30. Pedra Filosofal, de António Gedeão, cantado por Manuel Freire31. O primeiro dia, de Sérgio Godinho, cantado por Sérgio Godinho32. Asas Delta, de Regina Guimarães, cantado por Clã33. O mundo a meus pés, de Regina Guimarães, cantado por Três Tristes Tigres34. Segredo, de Maria Teresa Horta, interpretado por Cristina Branco35. N4V2mix, de Daniel Jonas, interpretado por Lisboa Poetry Orchestra36. Fado do retorno, de Lídia Jorge, interpretado por Mísia37. Lisboa, Oxalá, de Nuno Júdice, Interpretado por Carlos do Carmo e Carminho38. Mãe negra, de Alda Lara, cantado por Paulo de Carvalho39. A propósito de estrelas, de Adília Lopes, cantado por Arthur Nogueira40. Contabilidade, de valter hugo mãe, interpretado por Márcia, Camané e Dead Combo41. A pele que há em mim, de Márcia, interpretado por Márcia e JP Simões42. Povo que lavas no rio, de Pedro Homem de Mello, interpretado por Amália Rodrigues (1) e António Variações (2)43. Motivo, de Cecília Meireles, interpretado por Fagner44. Comigo me desavim, de Francisco de Sá de Miranda, Interpretado por D'Alma45. Os meninos de Huambo, de Manuel Rui Monteiro, interpretado por Ruy Mingas46. A casa, de Vinicius de Moraes, interpretado por Vinicius de Moraes47. Eu sei que vou te amar, de Vinicius de Moraes, interpretado por Ana Carolina48. Até ao fim, de Vasco Graça Moura, interpretado por Kátia Guerreiro49. Talvez, de Vasco Graça Moura, interpretado por Carminho50. Soneto do amor difícil, David Mourão-Ferreira, cantado por Tiago Bettencourt51. Rondel do Alentejo, de Almada Negreiros, interpretado por Ricardo Ribeiro52. Carta a Ângela, de Carlos Oliveira, interpretado por Carlos do Carmo53. Há palavras que nos beijam, de Alexandre O'Neill, cantado por Mariza54. Poema de desamor, de Alexandre O'Neill, cantado por Tiago Bettencourt55. Encosta-te a mim, de Jorge Palma, interpretado por Jorge Palma56. Flagrante, de Maria do Rosário Pedreira, interpretado por António Zambujo

Poemas 3

Nuno JúdiceLisboa, OxaláInterpretado porCarlos do Carmo e CarminhoTal qual esta Lisboa, roupa posta à janelaTal qual esta Lisboa, roxa jacarandáSei de uma outra Lisboa, de avental e chinelaAi Lisboa fadista, de Alfama e oxaláSei de uma outra Lisboa, de avental e chinelaAi Lisboa fadista, de Alfama e oxaláLisboa lisboeta, da noite mais escuraDe ruas feitas sombra, de noites e vielasPisa o chão, pisa a pedra, pisa a vida que é duraLisboa tão sozinha, de becos e ruelasPisa o chão, pisa a pedra, pisa a vida que é duraLisboa tão sozinha, de becos e ruelasMas o rosto que espreita, por detrás da cortinaÉ o rosto d'outrora feito amor feito agoraRiso de maré viva numa boca ladinaRiso de maré cheia num beijo que demoraRiso de maré viva numa boca ladinaRiso de maré cheia num beijo que demoraE neste fado deixo esquecido aqui ficarLisboa sem destino, que o fado fez cantarCidade marinheira sem ter que navegarCaravela da noite que um dia vai chegarCidade marinheira sem ter que navegarCaravela da noite que um dia vai chegarCidade marinheira sem ter que navegarCaravela da noite que um dia vai chegar

Alda LaraPrelúdioInterpretado porPaulo de Carvalho e Matias Damásio(Mãe Negra) Pela estrada desce a noiteMãe-Negra, desce com ela... Nem buganvílias vermelhas,nem vestidinhos de folhos,nem brincadeiras de guisos,nas suas mãos apertadas.Só duas lágrimas grossas,em duas faces cansadas. Mãe-Negra tem voz de vento,voz de silêncio batendonas folhas do cajueiro... Tem voz de noite, descendo,de mansinho, pela estrada... Que é feito desses meninosque gostava de embalar?... Que é feito desses meninosque ela ajudou a criar?...Quem ouve agora as históriasque costumava contar?... Mãe-Negra não sabe nada... Mas ai de quem sabe tudo,como eu sei tudoMãe-Negra!... Os teus meninos cresceram,e esqueceram as históriasque costumavas contar... Muitos partiram p'ra longe,quem sabe se hão-de voltar!... Só tu ficaste esperando,mãos cruzadas no regaço,bem quieta bem calada. É a tua a voz deste vento,desta saudade descendo,de mansinho pela estrada.

Adília LopesA propósito de estrelasCantado porArthur Nogueira Não sei se me interessei pelo rapazpor ele se interessar por estrelasse me interessei por estrelas por me interessarpelo rapaz hoje quando penso no rapazpenso em estrelas e quando penso em estrelaspenso no rapaz como me pareceque me vou ocupar com as estrelasaté ao fim dos meus dias parece-me quenão vou deixar de me interessar pelo rapazaté ao fim dos meus diasnunca saberei se me interesso por estrelasse me interesso por um rapaz que se interessapor estrelas já não me lembrose vi primeiro as estrelasse vi primeiro o rapazse quando vi o rapaz vi as estrelas

MárciaA pele que há em miminterpretado porMárcia e JP Simões Quando o dia entardeceuE o teu corpo tocouNum recanto do meuUma dança acordouE o sol apareceuDe gigante ficouNum instante apagouO sereno do céuE a calma a aguardar lugar em mimO desejo a contar segundo o fim.Foi num ar que te deuE o teu canto mudouE o teu corpo no meuUma trança arrancouE o sangue arrefeceuE o meu pé aterrouMinha voz sussurrouO meu sonho morreuDá-me o mar, o meu rio, minha calçada.Dá-me o quarto vazio da minha casaVou deixar-te no fio da tua fala.Sobre a pele que há em mimTu não sabes nada.Quando o amor se acabouE o meu corpo esqueceuO caminho onde andouNos recantos do teuE o luar se apagouE a noite emudeceuO frio fundo do céuFoi descendo e ficou.Mas a mágoa não mora mais em mimJá passou, desgasteiPara lá do fimÉ preciso partirÉ o preço do amorPara voltar a viverJá nem sinto o saborA suor e pavorDo teu colo a ferverDo teu sangue de florJá não quero saber.

valter hugo mãeContabilidadeInterpretado porMárcia, Camané e Dead Combovenho para te cortar osdedos em moedas pequenas ecom elas pagar ao coração omal que me fizesteo pior amor é este, o que já éfeito de ódio também. o pior amoré este, o que já é feito de ódio também,o pior é o amor é este, o quejá é feito de ódio também

Francisco de Sá de MirandaComigo me desavimInterpretado porD'AlmaComigo me desavim,Sou posto em todo perigo;Não posso viver comigoNem posso fugir de mim.Com dor da gente fugia,Antes que esta assi crecesse:Agora já fugiriaDe mim, se de mim pudesse.Que meo espero ou que fimDo vão trabalho que sigo,Pois que trago a mim comigoTamanho imigo de mim?

12Pedro Homem de MelloPovo que lavas no rioInterpretado porAmália Rodrigues (1) acompanhada por Don Byas António Variações (2)Povo que lavas no rioE que talhas com o teu machadoAs tábuas de meu caixãoPovo que lavas no rioQue talhas com o teu machadoAs tábuas do meu caixãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida nãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida nãoFui ter à mesa redondaBeber em malga que escondaO beijo de mão em mãoFui ter à mesa redondaBeber em malga que escondaO beijo de mão em mãoEra o vinho que me desteÁgua pura, fruto agresteMas a tua vida nãoO aroma de urze e de lamaDormi com eles na camaTive a mesma condiçãoO aroma de urze e de lamaDormi com eles na camaTive a mesma condiçãoPovo, povo, eu te pertençoDeste-me alturas de incensoMas a tua vida nãoPovo que lavas no rioQue talhas com o teu machadoAs tábuas de meu caixãoPovo que lavas no rioQue talhas com o teu machadoAs tábuas do meu caixãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida nãoPode haver quem te defendaQuem compre o teu chão sagradoMas a tua vida não.

Vinicius de MoraesEu sei que vou te amarInterpretado porAna CarolinaEu sei que vou te amarPor toda a minha vida eu vou te amarEm cada despedida eu vou te amarDesesperadamenteEu sei que vou te amarE cada verso meu seráPra te dizer que eu sei que vou te amarPor toda minha vidaEu sei que vou chorarA cada ausência tua eu vou chorarMas cada volta tua há de apagarO que esta ausência tua me causouEu sei que vou sofrerA eterna desventura de viverA espera de viver ao lado teuPor toda a minha vida

Vasco Graça MouraAté ao fimCantado porKátia GuerreiroIntensamente, amor, intensamentePonho na minha voz esta saudadeQue é feita de futuro no presenteE na ilusão é feita de verdadeIntensamente, amor, intensamenteDesesperando, amor, desesperandoPor mesmo assim eu não te dizer tudoMesmo ao lembrar-me de onde, e como, e quandoTeu coração mudou, mas eu não mudoDesesperando, amor, desesperandoAté ao fim, amor, até ao fimDo mundo, tal e qual pedro e InêsAqui te espero, aqui me tens a mimNeste mísero estado em que me vêsAté ao fim, amor, até ao fim

David Mourão_FerreiraSoneto do amor difícilInterpretado porTiago BettencourtA praia abandonada recomeçalogo que o mar se vai, a desejá-lo:é como o nosso amor, somente embaloenquanto não é mais que uma promessa...Mas se na praia a onda se espedaça,há logo a nostalgia duma florque ali devia estar para compora vaga em seu rumor de fim de raça.Bruscos e doloridos, refulgimosno silêncio da morte que nos tolhe,como entre o mar e a praia um longo molhede súbito surgido à flor dos limos.E deste amor difícil só nasceudesencanto na curva do teu céu.

Almada NegreirosRondel do AlentejoInterpretado porRicardo RibeiroEm minaretematebateleveverde neveminuetede luar.Meia-noitedo Segredono penedoduma noitede luar.Olhos carosde Morgadaenfeitavacom preparosde luar.Rompem fogopandeiretasmorenitas,bailam tetase bonitas,bailam chitase jaquetas,são de fitasdesafogode luar.Voa o xaileandorinhapelo baile,e a vidadoentinhae a ermidaao luar.Laçaroteescarlatede cocotealegriade Mariala-ri-rateem foliade luar.Giram pésgiram passosgirassóisos bonés,os braçosestes doisiram laçoso luar.coleteesta virgemendoidececomo o Sdo fogueteem vertigemde luar.Em minaretematebateleveverde neveminuetede luar.

Carlos OliveiraCarta a Ângelainterpretado porCarlos do CarmoPara ti, meu amor, é cada sonhode todas as palavras que escrever,cada imagem de luz e de futuro,cada dia dos dias que viver.Os abismos das coisas, quem os nega,se em nós abertos inda em nós persistem?Quantas vezes os versos que te douna água dos teus olhos é que existem!Quantas vezes chorando te alcanceie em lágrimas de sombra nos perdemos!As mesmas que contigo regresseiao ritmo da vida que escolhemos!Mais humana da terra dos caminhose mais certa, dos erros cometidos,foste de novo, e sempre, a mão da esperançanos meus versos errantes e perdidos.Transpondo os versos vieste à minha vidae um rio abriu-se onde era areia e dor.Porque chegaste à hora prometidaaqui te deixo tudo, meu amor!

Alexandre O'NeillPoema de desamorInterpretado porTiago BettencourtDesmama-te desanca-te desbunda-teNão se pode morar nos olhos de um gatoBeija embainha grunhe gemeNão se pode morar nos olhos de um gatoServe-te serve sorve lambe trincaNão se pode morar nos olhos de um gatoQueixa-te coxa-te desnalga-te desalma-teNão se pode morar nos olhos de um gatoArfa arqueja moleja aleijaNão se pode morar nos olhos de um gatoFerra marca dispara enodoaNão se pode morar nos olhos de um gatoFaz festa protesta desembestaNão se pode morar nos olhos de um gatoArranha arrepanha apanha espancaNão se pode morar nos olhos de um gato

Alexandre O'NeillHá palavras que nos beijamCantado porMarizaHá palavras que nos beijamComo se tivessem boca,Palavras de amor, de esperança,De imenso amor, de esperança louca.Palavras nuas que beijasQuando a noite perde o rosto,Palavras que se recusamAos muros do teu desgosto.De repente coloridasEntre palavras sem cor,Esperadas, inesperadasComo a poesia ou o amor.(O nome de quem se amaLetra a letra reveladoNo mármore distraído,No papel abandonado)Palavras que nos transportamAonde a noite é mais forte,Ao silêncio dos amantesAbraçados contra a morte.

Jorge PalmaEncosta-te a mimInterpretado porJorge PalmaEncosta-te a mimNós já vivemos cem mil anosEncosta-te a mimTalvez eu esteja a exagerarEncosta-te a mimDá cabo dos teus desenganosNão queiras ver quem eu não souDeixa-me chegarChegado da guerraFiz tudo p´ra sobreviver, em nome da terraNo fundo p´ra te merecerRecebe-me bemNão desencantes os meus passosFaz de mim o teu heróiNão quero adormecerTudo o que eu viEstou a partilhar contigoO que não vivi, hei-de inventar contigoSei que não seiÀs vezes entender o teu olharMas quero-te bemEncosta-te a mimEncosta-te a mimDesatinamos tantas vezesVizinha de mimDeixa ser meu o teu quintalRecebe esta pomba que não está armadilhadaFoi comprada, foi roubada, seja como forEu venho do nadaPorque arrasei o que não quisEm nome da estrada, onde só quero ser felizEnrosca-te a mimVai desarmar a flor queimadaVai beijar o homem-bomba, quero adormecerTudo o que eu viEstou a partilhar contigo, e o que não viviUm dia hei-de inventar contigoSei que não sei, às vezes entender o teu olharMas quero-te bemEncosta-te a mimEncosta-te a mimQuero-te bemEncosta-te a mim

António GedeãoLágrima de PretaCantado porAdriano Correia de Oliveira Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.

António GedeãoPedra FilosofalCantado porManuel FreireEles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer,como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Sérgio GodinhoO primeiro diaCantado porSérgio GodinhoA princípio é simples, anda-se sozinhoPassa-se nas ruas bem devagarinhoEstá-se bem no silêncio e no burburinhoBebe-se as certezas num copo de vinhoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaPouco a pouco o passo faz-se vagabundoDá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundoDiz-se do passado, que está moribundoBebe-se o alento num copo sem fundoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaE é então que amigos nos oferecem leitoEntra-se cansado e sai-se refeitoLuta-se por tudo o que se leva a peitoBebe-se, come-se e alguém nos diz: Bom proveitoE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaDepois vêm cansaços e o corpo fraquejaOlha-se para dentro e já pouco sobejaPede-se o descanso, por curto que sejaApagam-se dúvidas num mar de cervejaE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaEnfim duma escolha faz-se um desafioEnfrenta-se a vida de fio a pavioNavega-se sem mar, sem vela ou navioBebe-se a coragem até dum copo vazioE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vidaE entretanto o tempo fez cinza da brasaE outra maré cheia virá da maré vazaNasce um novo dia e no braço outra asaBrinda-se aos amores com o vinho da casaE vem-nos à memória uma frase batidaHoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Regina GuimarãesAsas DeltaCantado porClãHei, tenho asas nos péstenho asasHei tenho molas nos pése saltoSinto um formigueironas mãos e nos braçospassarinhos na cabeçaCata-vento nos ouvidosmil antenas nos cabelosQuem me leva tenho pressaPé de cabra, pé de dançaDançar por gosto não cansaNão vou só, levo o meu bandoa dança nos vai juntandoHei, tenho asas nos péstenho asasHei tenho molas nos pése saltoSe me pesa o traseirolevanto o meu narizperco o medo e a vergonhaFecho os olhos aí voue já não estou onde estounem sei quando posso pararPé de cabra, pé de dançaDançar por gosto não cansaNão vou só, levo o meu bandoa dança nos vai juntandoHei, tenho asas nos péstenho asasHei tenho molas nos pésE saltoMais alto

Regina GuimarãesO mundo a meus pésCantado porTrês Tristes TigresFalta o nome, falha o cheiroTudo forte tudo feioNão me lembro de ter gostadode me ter custadoJá não há, Já não ésO mundo a meus pés.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.Falta o lume, falha a chamaFaço a mala, faço a camaNão me lembro de ter sonhadoDe ter enganado.Falta o nome, falha o cheiroTudo forte tudo feioNão me lembro de ter gostadode me ter custadoJá não há, Já não ésO mundo a meus pés.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.Faça o favorDe entrar sem pedir licença.Não pense no que dizNem diga o que pensa.Falta o nome, falha o cheiroTudo forte tudo feioNão me lembro de ter gostadode me ter custadoFalta o lume, falha a chamaFaço a mala, faço a camaNão me lembro de ter sonhadoDe ter enganado.Faça o favorDe entrar sem fazer barulhoRien ne va plusAprenda a jogar seguro.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.Já não há, Já não ésO mundo a meus pés.

Daniel JonasN4V2mixInterpretado porLisboa Poetry OrchestraDeverias tê-lo feitoCom um fazer realE não pensadoO nunca consumadoO nunca visitadoVisita-se uma vezE de vez o que se fezOu não se fezE agora pensas se o fossesQuem serias tu agoraSeria essa a tua horaOu esta da demoraDe não teres sidoO que deviasQuem há muito te deviasQue queres, que dizes?Ninguém te ouve, ninguém te houveNinguém te vale, ninguém que falePor ti e p'lo que fossesIrás de mim dizer a toda a genteQue não fui gente, apenas renteA alguém de quem se ausenteA vida aparente e sua espumaA sua brumaDe incertas madrugadasPassas a mão em conchaPela corcunda da dúvidaPalpas a conta dos anosA conta dos danosNos teus olhos madurosDos teus bons enganosE ante o espelho frio e fundo(espelho mau espelho mau)Que te devolve sorrisos durosDuas uvas te olhamO nunca vindimadoOs ossos transparentesA tua longa perguntaQue queres, que dizes?Ninguém te ouve, ninguém te houveNinguém te vale, ninguém que falePor ti e p'lo que fossesIrás de mim dizer a toda a genteQue não fui gente, apenas renteA alguém de quem se ausenteA vida aparente e sua espumaA sua brumaDe incertas madrugadasE nisso moras sem perdãoE tu em todo o ladoSouvenir de tudo, avenir de nadaDe todos os mundosDe mundo nenhumE tu porém nadaNada que te ouçaNada que te hajaNada que te valhaLenta estrada de nadaQue te leva a lado algumTransitória e demoradaQue queres, que dizes?Ninguém te ouve, ninguém te houveNinguém te vale, ninguém que falePor ti e p'lo que fossesIrás de mim dizer a toda a genteQue não fui gente, apenas renteA alguém de quem se ausenteA vida aparente e sua espumaA sua brumaDe incertas madrugadas

Maria Teresa HortaSegredoInterpretado porCristina BrancoNão contes do meuvestidoque tiro pela cabeçanem que corro oscortinadospara uma sombra mais espessaDeixa que feche oanelem redor do teu pescoçocom as minhas longaspernase a sombra do meu poçoNão contes do meunovelonem da roca de fiarnem o que façocom elesa fim de te ouvir gritar

Lídia JorgeFado do retornointerpretado porMísiaAmor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaVoltaste, já voltasteJá entras como sempreAbrandas os teus passosE páras no tapeteEntão que uma luz ardaE assim o fogo aqueçaOs dedos bem unidosMovidos pela pressaAmor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaVoltaste, já volteiTambém cheia de pressaDe dar-te, na paredeO beijo que me peçasEntão que a sombra agiteE assim a imagem façaOs rostos de nós doisTocados pela graça.Amor, é muito cedoE tarde uma palavraA noite uma lembrançaQue não escurece nadaAmor, o que seráMais certo que o futuroSe nele é para habitarA escolha do mais puroJá fuma o nosso fumoJá sobra a nossa mantaJá veio o nosso sonoFechar-nos a gargantaEntão que os cílios olhemE assim a casa sejaA árvore do OutonoCoberta de cereja.

Cecília MeirelesMotivoInterpretado porFagnerEu canto porque o instante existee a minha vida está completa.Não sou alegre nem sou triste:sou poeta.Irmão das coisas fugidias,não sinto gozo nem tormento.Atravesso noites e diasno vento.Se desmorono ou se edifico,se permaneço ou me desfaço,- não sei, não sei. Não sei se fico> ou passo.Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo:- mais nada.

Manuel Rui MonteiroOs meninos de HuamboInterpretado porRuy MingasCom fios feitos de lágrimas passadasOs meninos de Huambo fazem alegriaConstroem sonhos com os mais velhos de mãos dadasE no céu descobrem estrelas de magiaCom os lábios de dizer nova poesiaSoletram as estrelas como letrasE vão juntando no céu como pedrinhasEstrelas letras para fazer novas palavrasOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadeCom os sorrisos mais lindos do planaltoFazem continhas engraçadas de somarSomam beijos com flores e com suorE subtraem manhã cedo por luarDividem a chuva miudinha pelo milhoMultiplicam o vento pelo marSoltam ao céu as estrelas já escritasConstelações que brilham sempre sem pararOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadePalavras sempre novas, sempre novasPalavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povoAssim contentes à voltinha da fogueiraJuntam palavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povo

Vinicius de MoraesA casaInterpretado porVinicius de MoraesEra uma casaMuito engraçadaNão tinha tetoNão tinha nadaNinguém podiaEntrar nela nãoPorque na casaNão tinha chãoNinguém podiaDormir na redePorque a casaNão tinha paredeNinguém podiaFazer pipiPorque penicoNão tinha aliMas era feitaCom muito esmeroNa Rua dos BobosNúmero Zero.

Vasco Graça MouraTalvezInterpretado porCarminhoTalvez digas um dia o que me queres,Talvez não queiras afinal dizê-lo,Talvez passes a mão no meu cabelo,Talvez eu pense em ti talvez me esperes.Talvez, sendo isto assim, fosse melhorFalhar-se o nosso encontro por um trizTalvez não me afagasses como eu quis,Talvez não nos soubéssemos de cor.Mas não sei bem, respostas não mas dês.Vivo só de murmúrios repetidos,De enganos de alma e fome dos sentidos,Talvez seja cruel, talvez, talvez.Se nada dás, porém, nada te douNeste vaivém que sempre nos sustenta,E se a própria saudade nos inventa,Não sei talvez quem és mas sei quem sou.Se nada dás, porém, nada te douNeste vaivém que sempre nos sustenta,E se a própria saudade nos inventa,Não sei talvez quem és mas sei quem sou.

Maria do Rosário PedreiraFlagranteInterpretado porAntónio ZambujoBem te avisei, meu amor,Que não podia dar certoE era coisa de evitarComo eu, devias supor,Que, com gente ali tão perto,Alguém fosse repararMas não: fizeste beicinhoE como numa promessaFicaste nua para mimPedaço de mau caminhoOnde é que eu tinha a cabeçaQuando te disse que sim?Embora tenhas juradoDiscreta permanecerJá que não estávamos sósOuvindo na sala ao ladoTeus gemidos de prazerVieram saber de nósNem dei p'lo que aconteceuMas, mais veloz e mais esperta,Só te viram de raspãoVergonha passei-a eu:Diante da porta abertaEstava de calças na mão

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57. não te pergunto onde chegas?, de José Luís Peixoto, interpretado por Rui Moura58. Vaga, no azul amplo solta, de Fernando Pessoa, interpretado por Patxi Andión59. Há uma música do povo, de Fernando Pessoa, interpretado por Mariza60. Ai Margarida, de Fernando Pessoa (Álvaro Campos), interpretado por Camané (Acompanhado por Mário Laginha)61. Eros e Psique, de Fernando Pessoa, dito por Maria Bethânia62. Gato que brincas na rua, de Fernando Pessoa, interpretado por Viviane3. O amor, quando se revela, de Fernando Pessoa, cantado por Salvador Sobral64. Cântico negro, de José Régio, dito por Diogo Infante65. Não posso adiar o amor, de António Ramos Rosa, interpretado por Linha da frente66. Fim, de Mário de Sá-Carneiro, interpretado por Trovante67. O outro, de Mário Sá-Carneiro, interpretado por Adriana Cacanhotto68. Cavalo à solta, de Ary dos Santos, cantado por Fernando Tordo e Jorge Palma69. Alegria, de José Saramago, interpretado por Teresa Salgueiro70. Ilha de Santiago, de Mário Lúcio Sousa, interpretado por Mayra Andrade71. Verde anos, de Pedro Tamen, interpretado por Dulce Pontes72. A gente não lê, de Carlos Tê, interpretado por Rui Veloso73. No teu poema, de José Luís Tinoco, interpretado por Carlos do Carmo74. Súplica, de Miguel Torga, interpretado por Vitor Blue75. Estou além, de António Variações, interpretado por António Variações

José Luís Peixotonão te pergunto onde chegas?Interpretado porRui Mouranão te pergunto de onde chegas?,porque sei para onde vais.hoje é a hora exacta em que até o ventoaté os pássaros desistem.e a noite a teus pés é um instantee um destino.não te pergunto onde está o teu rosto,tantas vezes ocluso e pisado sob os ramos,onde está o teu rosto?nem te peço que incendeies o teu nomenuma nuvem nocturna,nem te procuro.és tu que me encontras.ficas no rio que passa,nada de um tempo que não existe,nem correntes, nem pedra, nem musgo.nem silêncio.

Fernando PessoaVaga, no azul amplo soltaInterpretado porPatxi AndiónVaga, no azul amplo solta,Vai uma nuvem errando.O meu passado não volta.Não é o que estou chorando.O que choro é diferente.Entra mais na alma da alma.Mas como, no céu sem gente,A nuvem flutua calma,E isto lembra uma tristezaE a lembrança é que entristece,Dou à saudade a riquezaDe emoção que a hora tece.Mas, em verdade, o que choraNa minha amarga ansiedadeMais alto que a nuvem mora,Está para além da saudade.Não sei o que é nem consintoÀ alma que o saiba bemVisto da dor com que mintoDor que a minha alma tem.

Fernando PessoaHá uma música do povoInterpretado porMarizaHá uma música do povo,Nem sei dizer se é um fado —Que ouvindo-a há um chiste novoNo ser que tenho guardado...Ouvindo-a sou quem seriaSe desejar fosse ser...É uma simples melodiaDas que se aprendem a viver...E ouço-a embalado e sozinho...É essa mesma que eu quis...Perdi a fé e o caminho...Quem não fui é que é feliz.Mas é tão consoladoraA vaga e triste canção...Que a minha alma já não choraNem eu tenho coração...Se uma emoção estrangeira,Um erro de sonho ido...Canto de qualquer maneiraE acaba com um sentido!

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)Ai, MargaridaCantado porCamané (acompanhado por Mário Laginha)Ai, Margarida,Se eu te desse a minha vida,Que farias tu com ela?— Tirava os brincos do prego,Casava c'um homem cegoE ia morar para a Estrela.Mas, Margarida,Se eu te desse a minha vida,Que diria tua mãe?— (Ela conhece-me a fundo.)Que há muito parvo no mundo,E que eras parvo também.E, Margarida,Se eu te desse a minha vidaNo sentido de morrer?— Eu iria ao teu enterro,Mas achava que era um erroQuerer amar sem viver.Mas, Margarida,Se este dar-te a minha vidaNão fosse senão poesia?— Então, filho, nada feito.Fica tudo sem efeito.Nesta casa não se fia.Comunicado pelo Engenheiro Naval Sr. Álvaro de Campos em estado de inconsciência alcoólica.

Fernando PessoaEros e PsiqueDito porMaria BethâniaConta a lenda que dormiaUma Princesa encantadaA quem só despertariaUm Infante, que viriaDe além do muro da estradaEle tinha que, tentado,Vencer o mal e o bem,Antes que, já libertado,Deixasse o caminho erradoPor o que à Princesa vem.A Princesa Adormecida,Se espera, dormindo espera.Sonha em morte a sua vida,E orna-lhe a fronte esquecida,Verde, uma grinalda de hera.Longe o Infante, esforçado,Sem saber que intuito tem,Rompe o caminho fadado.Ele dela é ignorado.Ela para ele é ninguém.Mas cada um cumpre o Destino —Ela dormindo encantada,Ele buscando-a sem tinoPelo processo divinoQue faz existir a estrada.E, se bem que seja obscuroTudo pela estrada fora,E falso, ele vem seguro,E, vencendo estrada e muro,Chega onde em sono ela mora.E, inda tonto do que houvera,À cabeça, em maresia,Ergue a mão, e encontra hera,E vê que ele mesmo eraA Princesa que dormia.

Fernando PessoaGato que brincas na ruaInterpretado porVivianeGato que brincas na ruaComo se fosse na cama,Invejo a sorte que é tuaPorque nem sorte se chama.Bom servo das leis fataisQue regem pedras e gentes,Que tens instintos geraisE sentes só o que sentes.És feliz porque és assim,Todo o nada que és é teu.Eu vejo-me e estou sem mim,Conheço-me e não sou eu.

Fernando PessoaO amor, quando se revelaInterpretado porSalvador Sobral (Presságio)O amor, quando se revela,Não se sabe revelar.Sabe bem olhar p'ra ela,Mas não lhe sabe falar.Quem quer dizer o que senteNão sabe o que há-de dizer.Fala: parece que mente...Cala: parece esquecer...Ah, mas se elaadivinhasse,Se pudesse ouvir o olhar,E se um olhar lhe bastasseP'ra saber que a estão a amar!Mas quem sente muito, cala;Quem quer dizer quanto senteFica sem alma nem fala,Fica só, inteiramente!Mas se isto puder contar-lheO que não lhe ouso contar,Já não terei que falar-lhePorque lhe estou a falar...

José RégioCântico negroInterpretado porDiogo Infante"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos docesEstendendo-me os braços, e segurosDe que seria bom que eu os ouvisseQuando me dizem: "vem por aqui!"Eu olho-os com olhos lassos,(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)E cruzo os braços,E nunca vou por ali...A minha glória é esta:Criar desumanidade!Não acompanhar ninguém.- Que eu vivo com o mesmo sem-vontadeCom que rasguei o ventre à minha mãeNão, não vou por aí! Só vou por ondeMe levam meus próprios passos...Se ao que busco saber nenhum de vós respondePor que me repetis: "vem por aqui!"?Prefiro escorregar nos becos lamacentos,Redemoinhar aos ventos,Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,A ir por aí...Se vim ao mundo, foiSó para desflorar florestas virgens,E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!O mais que faço não vale nada.Como, pois sereis vósQue me dareis impulsos, ferramentas e coragemPara eu derrubar os meus obstáculos?...Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,E vós amais o que é fácil!Eu amo o Longe e a Miragem,Amo os abismos, as torrentes, os desertos...Ide! Tendes estradas,Tendes jardins, tendes canteiros,Tendes pátria, tendes tectos,E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...Eu tenho a minha Loucura !Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;Mas eu, que nunca principio nem acabo,Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!Ninguém me peça definições!Ninguém me diga: "vem por aqui"!A minha vida é um vendaval que se soltou.É uma onda que se alevantou.É um átomo a mais que se animou...Não sei por onde vou,Não sei para onde vou- Sei que não vou por aí!

Mário de Sá-CarneiroFimCantado porTrovanteQuando eu morrer batam em latas,Rompam aos saltos e aos pinotes,Façam estalar no ar chicotes,Chamem palhaços e acrobatas!Que o meu caixão vá sobre um burroAjaezado à andaluza:A um morto nada se recusa,E eu quero por força ir de burro!...

António Ramos RosaNão posso adiar o amorinterpretado porLinha da Frente Não posso adiar o amor para outro séculonão possoainda que o grito sufoque na gargantaainda que o ódio estale e crepite e ardasob as montanhas cinzentase montanhas cinzentasNão posso adiar este braçoque é uma arma de dois gumes amor e ódioNão posso adiarainda que a noite pese séculos sobre as costase a aurora indecisa demorenão posso adiar para outro século a minha vidanem o meu amornem o meu grito de libertaçãoNão posso adiar o coração.

Mário de Sá-CarneiroO outroInterpretado porAdriana CacanhottoEu não sou eu nem sou o outro,Sou qualquer coisa de intermédio:Pilar da ponte de tédioQue vai de mim para o Outro.

José Carlos Ary dos SantosCavalo à soltaInterpretado porFernando Tordo e Jorge PalmaMinha laranja amarga e docemeu poemafeito de gomos de saudademinha penapesada e levesecreta e puraminha passagem para o breve, breveinstante da loucuraMinha ousadiameu galopeminha rédeameu potro doidominha chamaminha réstiade luz intensade voz abertaminha denúncia do que pensado que sente a gente certaEm ti respiroem ti eu provopor ti consigoesta força que de novoem ti persigoem ti percorrocavalo à soltapela margem do teu corpoMinha alegriaminha amarguraminha coragem de correr contra a ternura.Por isso digocanção castigoamêndoa travo corpo alma amante amigopor isso cantopor isso digoalpendre casa cama arca do meu trigoMeu desafiominha aventuraminha coragem de correr contra a ternura

José SaramagoAlegriaInterpretado porTeresa SalgueiroJá ouço gritos ao longeJá diz a voz do amorA alegria do corpoO esquecimento da dorJá os ventos recolheramJá o verão se nos ofereceQuantos frutos quantas fontesMais o sol que nos aqueceJá colho jasmins e nardosJá tenho colares de rosasE danço no meio da estradaAs danças prodigiosasJá os sorrisos se dãoJá se dão as voltas todasÓ certeza das certezasÓ alegria das bodas

Mário Lúcio SousaIlha de SantiagoInterpretado porMayra AndradeIlha de SantiagoTem corpinho de algodónSaia de chita cu cordónUm par de brinco roda piónNa ilha de SantiagoTem nho Mano Mendi, tem Kaká, Nha Nácia Gómicu Zezé Nhu Raúl lá di fundo Ruber da BarcaNa Ilha de SantiagoTem Caetaninho, tem Codé, Nhu Ariquecu Ano Nobo Nha Bibinha lá di fundo Curral de BaxoNa Ilha de SantiagoTem Séma Lópi, tem Catchás, Djirga, Bilocas, Ney,Ntóni Dente d’Oro lá di fundo San Dimingo

Carlos TêA gente não lêInterpretado porRui VelosoAi, senhor das furnasQue escuro vai dentro de nósRezar o terço ao fim da tardeSó para espantar a solidãoE rogar a Deus que nos guardeConfiar-lhe o destino na mãoQue adianta saber as marésOs frutos e as sementeirasTratar por tu os ofíciosEntender o suão e os animaisFalar o dialeto da terraConhecer-lhe o corpo pelos sinaisE do resto entender malSoletrar, assinar em cruzNão ver os vultos furtivosQue nos tramam por trás da luzAi, senhor das furnasQue escuro vai dentro de nósA gente morre logo ao nascerCom olhos rasos de lezíriaDe boca em boca passando o saberCom os provérbios que ficam na gíriaDe que nos vale esta purezaSem ler fica-se pederneiraAgita-se a solidão cá, no fundoFica-se sentado à soleiroA ouvir os ruídos do mundoE a entendê-los à nossa maneiraE carregar a superstiçãoDe ser pequeno, ser ninguémE não quebrar a tradiçãoQue dos nossos avós já vêm

Pedro TamenVerdes anosInterpretado porDulce PontesEra o amorque chegava e partia:estarmos os doisera um calorque arrefeciasem antes nem depois…Era um segredosem ninguém para ouvir:eram enganose era um medo,a morte a rirnos nossos verdes anos...Teus olhos não eram paz,não eram consolação.O amor que o tempo trazo tempo o leva na mão.Foi o tempo que secoua flor que ainda não era.Como o Outono chegouno lugar da Primavera!No nosso sangue corriaum vento de sermos sós.Nascia a noite e era dia,e o dia acabava em nós…O que em nós mal começavanão teve nome de vida:era um beijo que se davanuma boca já perdida.

José Luís TinocoNo teu poemaInterpretado porCarlos do CarmoNo teu poemaExiste um verso em branco e sem medidaUm corpo que respira, um céu abertoJanela debruçada para a vidaNo teu poema existe a dor calada lá no fundoO passo da coragem em casa escuraE, aberta, uma varanda para o mundoExiste a noiteO riso e a voz refeita à luz do diaA festa da Senhora da AgoniaE o cansaçoDo corpo que adormece em cama friaExiste um rioA sina de quem nasce fraco ou forteO risco, a raiva e a luta de quem caiOu que resisteQue vence ou adormece antes da morteNo teu poemaExiste o grito e o eco da metralhaA dor que sei de cor mas não recitoE os sonos inquietos de quem falhaNo teu poemaExiste um canto, chão alentejanoA rua e o pregão de uma varinaE um barco assoprado a todo o panoExiste um rioO canto em vozes juntas, vozes certasCanção de uma só letraE um só destino a embarcarNo cais da nova nau das descobertasExiste um rioA sina de quem nasce fraco ou forteO risco, a raiva e a luta de quem caiOu que resisteQue vence ou adormece antes da morteNo teu poemaExiste a esperança acesa atrás do muroExiste tudo o mais que ainda escapaE um verso em branco à espera de futuro

António VariaçõesEstou alémInterpretado porAntónio VariaçõesNão consigo dominarEste estado de ansiedadeA pressa de chegarP'ra não chegar tardeNão sei do que é que eu fujoSerá desta solidãoMas porque é que eu recusoQuem quer dar-me a mãoVou continuar a procurarA quem eu me quero darPorque até aqui eu sóQuero quem quem eu nunca viPorque eu só quero quemQuem não conheciPorque eu só quero quemQuem eu nunca viPorque eu só quero quemQuem não conheciPorque eu só quero quemQuem eu nunca viEsta insatisfaçãoNão consigo compreenderSempre esta sensaçãoQue estou a perderTenho pressa de sairQuero sentir ao chegarVontade de partirP'ra outro lugarVou continuar a procurarO meu mundoO meu lugarPorque até aqui eu sóEstou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde não estouEsta insatisfaçãoNão consigo compreenderSempre esta sensaçãoQue estou a perderTenho pressa de sairQuero sentir ao chegarVontade de partirP'ra outro lugarVou continuar a procurarA minha formaO meu lugarPorque até aqui eu sóEstou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu nao vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde não estouEstou bem aonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vouPorque eu só estou bemAonde eu não estouPorque eu só quero irAonde eu não vou

Miguel TorgaSúplicaInterpretado porVitor BlueAgora que o silêncio é um mar sem ondas,E que nele posso navegar sem rumo,Não respondasÀs urgentes perguntasQue te fiz.Deixa-me ser felizAssim,Já tão longe de ti, como de mim.Perde-se a vida, a desejá-la tanto.Só soubemos sofrer, enquantoO nosso amorDurou.Mas o tempo passou,Há calmaria...Não perturbes a paz que me foi dada.Ouvir de novo a tua voz, seriaMatar a sede com água salgada.